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Contagem táticaDomingo, 18 de Março de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Com aquela antiga tática, ele havia se esquivado de muita confusão desnecessária. Esquentadinho na adolescência, Estupim tinha sido orientado por familiares a contar pausadamente até cinco antes de estourar e partir para briga. Nesses míseros cinco segundos, ele devia refletir brevemente se valia a pena o confronto físico ou se exisitia uma saída melhor.Em diversos casos, a estratégia funcionava. Com o pavil curto que lhe rendeu o apelido aos 13 anos, Estupim encontrava nessa contagem um mecanismo para se segurar. De início, os pais sugeriram que ele contasse até dez, mas o garoto percebeu de forma empírica que se em cinco segundos não desistisse do conflito não seriam os outros cinco que ajudariam. Segundo seus próprios cálculos, quase 90% das brigas que podia ter se envolvido passaram a ser solucionadas de outra forma. Há anos Estupim não se metia em confusão. Tanto que no trabalho era conhecido apenas como Zé Virgílio. Apenas os antigos amigos continuavam lhe chamando pelo apelido. Desde que nascera seu primeiro filho passou a ser um cara tranqüilo e pacífico. E assim estava, até decidir trocar de faixa na Marginal Tietê, em São Paulo. O corte foi rápido e um pouco impreciso. Estupim deu uma pequena fechada no carro que estava ao lado, mas se apressou em pedir desculpas pelo espelho retrovisor e também com a mão para fora do vidro. O cara de trás não aceitou o pedido e ligou a luz alta para reclamar e incomodar. Estupim até compreendeu a reação estressada do sujeito, mas após 200 metros do incidente a luz continuava acesa. Resolveu deixar o cara passar. Deu seta para a direita e abriu caminho mudando novamente de faixa. O babaca, porém, também passou para a direita e permaneceu com a retaliadora luz alta disparada. Estupim olhou feio pelo retrovisor e viu que o cidadão de trás gesticulava e falava. Provavelmente pronunciava alguns despropérios para ele. Decidiu então pisar no freio para também aborrecer e se o cara realmente quisesse briga que batesse atrás. Entretanto, antes de fazer isso, Estupim lembrou da velha tática anti-briga. Contou mentalmente até cinco, mas não adiantou. Estava irado. Lembrou da família, dos filhos e resolveu contar até dez. Nada mudou. Estava ainda mais puto. Quando a contagem atingiu os 15 segundos, Estupim voltou ao seu antigo normal. Freou com tudo e o carro de trás não conseguiu evitar a colisão. Ao descer, Estupim estava disposto a matar o maldito. Só que logo de cara reconheceu o sujeito: Ramalho, o seu supervisor do trabalho. O cara tinha percebido que era Zé Virgílio na hora da fechada, e infelizmente escolheu a pessoa errada para fazer a brincadeira de mau gosto. Estupim contou até cinco e conseguiu se acalmar. Precisava do emprego... |