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Cheiro de vizinhança

Sábado, 20 de Janeiro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

O toque peculiar da campainha indicava que a trégua havia acabado. Em menos de quinze segundos dona Nilda disparou três vezes o botão. Antes mesmo de chegar na sacada e avistar aquela senhora de 1m45, cabelos grisalhos e bengala na mão eu já sabia que era ela. Ninguém mais seria tão inconveniente de apertar a campainha tantas vezes em pouquíssimo tempo.

Dona Nilda é daquelas pessoas dignas de dó. Só que de tão insuportável, ela consegue neutralizar esse sentimento nos outros. Acredito que ela se esforça para ser desagradável justamente para que ninguém sinta pena. Mas nem disso eu tenho convicção porque, de tempos em tempos, ela gosta de lembrar a todos que perdeu marido e filho num acidente de carro há 30 anos.

Com essa história triste de vida, minha vizinha da esquerda se escora para mesclar chatice e intransigência com lamentações e autopiedade. E, com sabedoria, ela alterna esses procedimentos de forma a ficar imune a retaliações.

Mas o fato é que estávamos em trégua há quase um mês, desde que eu a levei e busquei numa clínica para operação de varizes. No entanto, a paz deve ter durado esse tempo exclusivamente pelo fato de que ela estava entrevada no quarto, com as pernas para cima, e não pela minha atitude benevolente.

Há quase um mês que eu não ouvia a sua voz. E pelo simples soar insistente da campainha eu sabia que não ia escutar um “muito obrigado”. Quando eu finalmente cheguei na sacada, passados uns 30 segundos desde o primeiro toque, dona Nilda estava apertando o botão novamente.

- Boa noite, vejo que já melhorou.
- Infelizmente tive de levantar porque não estava suportando o odor do seu quintal.
- Cheiro de que?
- Urina e fezes de cachorro. Há quantos dias você não retira os dejetos?
- Dona Nilda, o meu cachorro morreu há três meses. – Ela adorava me fazer lembrar disso para me deixar mal.
- E você não adquiriu outro?

Essa era uma pergunta capciosa. A mulher odiava cães, mas ao mesmo tempo via neles um argumento de peso para me procurar e me irritar.

- Não. Mas o fato é que a senhora sente um mau cheiro e eu gostaria de convidá-la para subir e ver que não é da minha casa.
- Você está de chacota? Sabes que não posso subir as escadas da sua residência, porque não têm corrimão.
- Eu ajudo. Venha.

Enquanto subia, dona Nilda praguejou contra outros vizinhos e eu descobri que não fui o único felizardo naquela noite a receber a ilustre visitante. Ela criticou os trajes do seu Elias, a desordem do lar dos Santiago, o jeito fogoso da Ritinha e até uma suposta flatulência do Joné. – Dona Nilda tinha aversão a mau cheiro.

Conduzi aquela senhora até o quintal. Atenta a tudo, ela notou a pintura velha da parede, as infiltrações de água, o posicionamento inadequado do botijão de gás, os vasos que atraem o mosquito da dengue, a iluminação precária, a falta de corrimão e a quantidade de cerveja vazia que estava num canto.

- Tu bebes demais.
- Não bebi sozinho. Meus amigos vieram em casa ontem à noite. – A palavra amigos não lhe caiu bem.
- A-mi-gos. Então foram os seus a-mi-gos que estacionaram o carro em frente minha casa?
- Não. Eles pararam na minha garagem. Mas, como a senhora pode ver, não tem cheiro de nada por aqui. - Irritado, minha intenção era encerrar logo o assunto e levá-la embora da minha casa.
- É, o odor não é daqui. O Manoel se enganou. Acho que ele anda raivoso contigo por causa do barulho, e o culpou pelo odor erroneamente.
- O Manoel? Mas a senhora não disse que estava deitada e teve de levantar porque sentiu o cheiro? O Manoel estava deitado contigo?
- Lunático. Como ousa bradar um absurdo desses? Manoeeeeel, Manoeeeeel, ô Manooooooooel. – A louca começou a chamar o vizinho de trás de forma desvairada.

Quando ele apareceu tentei explicar a situação, mas dona Nilda não me deixou falar. Gesticulando, chorando e gritando, disse que eu insinuei que eles estavam tendo um romance. Manoel estava noivo e, por coincidência, a noiva estava na casa dele naquele momento. Por sorte, ele era um sujeito equilibrado e não gostava de confusão. Disse que aquele não era um bom horário para conversar e se retirou marcando uma reunião no dia seguinte.

Argumentou que a visita à casa dele era importante para esclarecer os fatos. E, principalmente, para provar a mim de uma vez por todas que o mau cheiro não vinha de lá. Indignado, olhei para Dona Nilda, tentando entender que tipo de intriga mentirosa ela havia feito. Mas a minha vizinha apenas abanou a cabeça para mim, como que confirmando que o odor não era do quintal do Manoel.     

vem que é bão com a Rogéria | 2 vieram