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Cheesecake maldito

Quarta, 12 de Março de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

    Já acordara meio confuso, aquelas duas bolinhas alaranjadas da caixa de vitamina C pareciam sorrir para mim, não só visualmente, mas juro que podia ouvi-las tirando um baita sarro da minha cara. Tentei não dar ouvidos, sentia as cócegas molhadas do fervor anti-gripal, enquanto levava o copo à boca, contendo um líquido cada vez mais amarelado e espumante.

Goles rápidos, uma sensação de refrescância. Aquilo não era água com ácido ascórbico, era um néctar do oásis, uma porção de ondas com orvalho em ritmo de salsa. E logo estava eu caminhando novamente pelas areias do Caribe, o Sol ao longe, tenro e amigo, criando as sombras das palmeiras, onde eu podia sentir a umidade salgada sob meus pés. Mas voltei a mim em poucos instantes.

Algo estava acontecendo comigo! Uma viagem instantânea a locais paradisíacos seguida de uma brusca volta à realidade quase normal. Isso é loucura. Algum curto-circuito cerebral.

Decidi ir trabalhar mesmo assim. Peguei o carro e enfrentei o maior trânsito ao qual minha memória pode fazer referência. Vi elefantes cruzando avenidas sobre carros de circo, policiais montados fazendo escolta a um garoto num triciclo vermelho, além de uma passeata no meio da Avenida Brasil, desviando todo o tráfego caótico. Ah! E pintaram os postes da cidade de roxo. Diabos!

Cheguei ao prédio da empresa e segui meu dia. Parei para comer alguma coisa, deixando de lado meu ataque de riso anterior, quando vi meu chefe vestido de palhaço. Deve ser coisa do grande circo que chegou, pensei. Algumas de minha colegas faziam top-less no corredor. Achei estranho. Adorei ver aquilo, mas achei muito mais que anormal. Tudo mudou. Estava eu no paraíso?

Pedi um cheesecake como havia feito ontem, ao término do expediente, antes de voltar caindo de sono para casa. Guildo, o atendente da cantina, o qual sempre achei bastante lesado mas bastante simpático também, chamou-me de canto:

_ Você está se sentindo bem hoje? – perguntou num tom assustado.
_ O dia está muito estranho, mas estou bem sim. Aliás, mudaram os uniformes da cantina? É impressão minha ou você está vestido de milk shake?
_ O cheesecake de ontem estava contaminado, deixei cair na receita alguns ingredientes pessoais que não deveriam nunca ter saído do meu bolso. E já que você gosta tanto de cheesecake e comeu três pedaços, achei que deveria me preocupar. E agora estou percebendo que eu estava certo. Mas você vai sobreviver. Espero... – Guildo disse aquilo com a voz trêmula, enquanto eu ouvia dentro dos meus ouvidos a trilha sonora de psicose, os estalos agudos das cordas, o ralo, o sangue... o terror!

Relaxei, agora que entendi estar sob o efeito de algum ingrediente ilícito e lisérgico, analisei que o dia estava normal, eu é que estivera o tempo todo fora de mim. Acho que isso ocorre quase sempre, na verdade, o nosso próprio mundo acaba sendo completamente diferente do mundo dos outros. E nunca a realidade de um pode ser interpretada por outra pessoa. E, se em algumas horas, ou dias, esse efeito louco iria passar, agora só me restava curtir as sensações, pois o pior já deve ter acontecido, no trânsito ou no acesso de riso. Devo ter sido despedido, mas que mal há nisso?

Garfei o cheesecake, e dele saíram diversas mini-garotas seminuas, envoltas em cobertura de morango, dançando e cantando canções que me fizeram passar o resto da noite assistindo ao show, sozinho, ali na cantina, para assombro dos colegas que passavam por lá. Até que o Sol nasceu novamente, junto a uma enorme dor de cabeça.


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