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Cego, surdo e burroTerça, 27 de Fevereiro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Tenho uma longa história com olho. Sempre fui vidrado em pirata, fanático por cores e gamado em mulher de olho cinza – veja bem, não é verde nem azul, é c-i-n-z-a. Li Saramago, Nelson Rodrigues e tantos mais que escreveram sobre a cegueira. Tanto fantasiei aquela não-imagem pavorosa e tão tipicamente arquetípica: ficar cego de uma hora para outra.No meu caso, sempre tive pavor, mas não de ficar cego simplesmente, de doença como os de Saramago ou de nascença como a filhinha de Nelson. Medo de ficar cego de um olho só, de perder a profundidade, de trombar nas coisas, tropeçar na guia da calçada igual velhinho sem reflexo; apalpar o ar em vez do seio na hora do ante-sexo; enfiar o garfo no nariz em vez da boca no almoço e espirrar, sem resfriado, caldinho de feijão no jantar. Recentemente fui ao oculista e dilatei a pupila. Em outras ocasiões já tinha sido pego desprevenido pelo oculista que adora pregar peças, me dilatando a pupila quando estou de bicicleta. Admito que foi divertido, me senti em um game: “Bicicleta em São Paulo Nível 3 – sem os olhos”. Mas desta vez havia me preparado e fui de táxi. Na volta comecei a curtir minha cegueira passageira, treinando meus instintos e enfrentando aquele medo da futura cegueira, só que ceguinho de ambos olhos, afinal, o doutor não achou graça quando pedi para dilatar só um pra enfrentar meu medo. Minha primeira atividade foi escrever SMS no celular para minha esposa. Muito tempo depois percebi que não cometera quase nenhum erro, foi apenas um esforço de concentração para a memória fazer as vezes da vista, e consegui mandar várias mensagens. O que não deu para resolver foi ler as respostas e logo emendei: “Anor, dimatei a puqila, mão consigo ldr. Um ceijo.” Então me senti pronto para o grande desafio, uma verdadeira afronta aos marketeiros de plantão. Fui a uma destas lanchonetes nacionais despretensiosas comer um sanduba, sem poder usufruir da minha vista. Teria de escolher obrigatoriamente, portanto, pela descrição real e seca, em vez daquelas fotos de estúdio onde o ovo é de plástico, o pão é de borracha, o queijo é de papel Contact e o hambúrguer de uma pasta de serragem, tudo coberto de vaselina pra brilhar mais e iludir o trouxa do lado de lá do balcão. Diante das circunstâncias, fui obrigado a recorrer à menina no caixa, que, creio com minha cegueira parcial, sorriu silenciosamente amável com aquela cara de fast-food-bom-dia-senhor, e me ouviu pedir para recitar a carta em voz alta para permitir minha escolha. Para a minha surpresa, não ouvi nada em retorno. Pedi novamente e nada. Apenas um sussurro forçado, parecia que alguém estava falando mal de mim. Pedi novamente, já um pouco irritado e com a barriga ironicamente roncando. Finalmente consegui compreender que a moça estava afônica. Bom, um cego e uma muda, isto não tem futuro, pensei. Convoquei o colega ao lado, que falou, desta vez alto e claro Bom dia Senhor! apenas para me apurrinhar, pois logo em seguida admitiu, em tom menos alto e menos claro que era analfabeto e não tinha nem sequer lido o manual de atendimento da lanchonete, mas pra eu não contar pra ninguém que ele perderia o emprego. Claro que para a colega ele não disse nada, pois ela tampouco diria nada, afônica que estava. Tive ganas de pedir caridosamente que enfiasse o manual de atendimento em algum lugar sem luz, mas preferi usar a criatividade. Após descobrir que um outro funcionário estava doente e o último estava em horário de almoço, pedi então que me descrevesse os lanches, afinal, ele deveria saber o sabor, da mesma forma que aprendera sem ler o fast-food-bom-dia-senhor. Qual nada. Sou vegetariano, retrucou, mas se o senhor quiser eu falo como é a cara do sanduíche. E começou a descrever. O que o bom e ignorante moço não percebeu é que estava sendo muito honesto, dando as medidas reais do minúsculo hambúrguer, falando suas impressões (vindo de um vegetariano, imagine), descrevendo o processo de feitura do sanduíche, e até as mãos sujas do Mané, na cozinha, que manuseavam os bifes de carne moída de procedência duvidosa. Obviamente não me animei muito, pensei em algo mais garantido, usando a velha estratégia de acampamento e rodoposto, antes da invenção do Frango Assado: pedi um insosso um queijo quente. Quando o Mané resolveu trabalhar e finalmente ficou pronto o queijo-quente, o rapaz que havia voltado do almoço estava substituindo o vegetariano, mas não viu que ficara pronto o lanche. Até eu, cego, mas faminto, tinha visto um borrão amarelo com cheiro semelhante a queijo, no balcão de entrega. Convoquei o fulano para me entregar o lanche e ele não atendeu. Joguei então, impaciente e morto de fome, uma batata-frita velha que estava em cima do balcão, e consegui que o fulano percebesse que o assunto era com ele. Sei lá, devia ter déficit de atenção, porque no meio do caminho ele parou para fazer três outras coisas... Após cerca de 50 minutos, peguei meu lanche em mãos, me dirigi a uma das mesas vagas da lanchonete despretensiosa, ansioso, babando, quando meio que avistei algo se aproximando, de marcha a ré, talvez o faxineiro, limpando vigorosamente o assoalho. Gritei, Oi, Psiu, cuidado... Ou, moço, peraê, môço, Porra!!! O cara derrubou meu queijo-quase-quente e virou, educado: “Descurpe, seu moço, é que tô meio surdo...”
O Aloísio que não é do campo é o
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