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Carta de um defunto

Quinta, 5 de Junho de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

E então morri...
Isso mesmo, passei para este lado de cá. E no final das contas, até que estou gostando muito.

Não há tanto o que fazer, não há muitos com quem conversar. É bem tranqüilo! Mas para falar a verdade, já estava de saco cheio da baderna aí da sua terra. Sem brincadeira.

Ah, sei lá... Muita confusão, muita injustiça, muito sofrimento. Era tudo tão difícil de conseguir, uma tortura poder se abrir com alguém, impossível manter um relacionamento saudável. Olha, estou bem melhor por aqui.

O que? Comida, dinheiro, carência? Deixei tudo por aí, jogado em alguma gaveta que alguém ainda há de encontrar e, se tiver coragem, publicar. Mas já não preciso de mais nada disso.

E fico pensando, muito tempo passei correndo atrás de tanta coisa que, olha só, nem lembro mais, nem me serve mais. Acho que a realidade é que não temos nada, não somos nada além de um amontoado de almas gritando por socorro e esperando que alguém, daqui desse lado, possa dar uma forcinha e guiar nossos passos. Pois bem, agora que estou aqui, espero não precisar guiar os passos de ninguém. Mesmo porque, imagina só o que eu acabaria fazendo com o coitadinho...

E o pior é que eu nem aprendi ainda a puxar o pé, às doze badaladas noturnas, de alguns colegas vivos. Será tão divertido... Posso até ver a cara deles! Olha lá... Aqui, é só imaginar e já se vê tudo... puxa, eram bacanas esses caras...

É, lembro de uma vez na praia, o Sol batendo no rosto, respingos das ondas nas canelas. Verão, cerveja, um violão... Puxa, já não posso sentir o Sol esquentar as bochechas e a orelha, queimando os ombros sem protetor - eu nunca me lembrava de passar o protetor, só quando já era tarde demais. Não sinto mais o vento levantar os pêlos do braço num arrepio, nem a água fria do mar nos pés, já se enterrando na areia. Que saudade!

A minha garota... Ainda sinto o coração pular para fora pela garganta e o estômago apertar, enquanto uma enorme descarga de adrenalina e serotonina correm pelo corpo todo ao vê-la passear, tirar a roupa... As sensações que só são possíveis quando se é vivo, quando se pode tocar, mesmo que em ilusão, um corpo, um piano... Ouvir o som e cantar junto enquanto se ri de todos e de tudo.

E pensar que para mim, isso acabou... Ah, não. Quem dera voltar, só um segundo, e poder dar uma baita gargalhada de todos vocês, buscando o que nunca irão achar, pois já o têm.

Mas acho que essa é a vida, e o fim dela. Isso mesmo, bem aqui, depois do fim, é que a gente percebe quão maravilhoso é respirar. E pronto. Não é preciso mais nada.

Bom, deixe-me ir que estão chamando lá de longe, é hora da aula dos recém chegados. Nem sei quanto tempo já passou desde que estou aqui. Tempo... Só por aí, querido. Aproveite, pois esse tempo é mesmo maluco e quando a gente menos espera tudo muda, tudo vira de cabeça para baixo. E, nesse fim do tempo para a vida, são poucas as coisas que trazemos pra cá. No meu caso, um par de chinelos, cueca, calça, camiseta e uma mala cheia de sentimentos que hei de perder por aí, enquanto for refazer meu caminho. Só se pode trazer para cá o que não se pode tocar ou ter.

Então, meu conselho: escolha bem as sua bagagem, ok? Mas tenha certeza de ter muito para trazer, pois é indiferente o que fica por aí, aquele monte de tranqueira. E até daqui muuuuito tempo.


Canalizado em PVC por Ivan Volpe | texto abduzido por 3