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Carnaval fora de época
Carnaval fora de época
Terça, 22 de Janeiro de 2008
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Estava de olho –de um olho, diga-se– na odalisca loura que circulava faceira pelos arredores do coreto. Vestido de pirata, com tapa-olho e tudo, Jorginho tinha que se contentar em usar apenas metade de seu potencial de visão para flertar com as foliãs.
Tudo pelo figurino. Afinal, ninguém se dá melhor no Carnaval do que os caras com fantasia de pirata –a não ser sujeitos que usam uma bola de futebol cortada ao meio como chapéu. Este segundo grupo é pequeno, mas consta que tem um desempenho incrível no Carnaval.
A luminosidade fraca do fim de tarde, somada às muitas cachaças e cervejas, fez com que a visão da odalisca se tornasse celestial para Jorginho. Ficou apaixonado.
Tomado de uma sensação de confiança que só a fantasia de pirata podia proporcionar –ainda que estivesse com um mocho real empalhado no ombro, já que não havia conseguido um papagaio–, Jorginho deu uma piscadela para a Odalisca. Depois outra. E mais outra. E nada.
Só aí percebeu que estava usando o olho que estava escondido.
Resolveu então mudar de tática. O melhor a fazer era dar uma de difícil. Afinal, quem aquela odalisca pensava que era? Tomou mais algumas cachaças e outras tantas cervejas enquanto curtia as marchinhas.
Cantou Mamãe Eu Quero a plenos pulmões, dançou O Teu Cabelo Não Nega com os dois indicadores apontados para cima, fez uma coreografia toda especial para Turma do Funil, rolou no chão em Me Dá um Dinheiro Aí, sacudiu o corpo com Allah-la-ô, foi ao delírio com Cachaça e quase foi preso em Bota a Camisinha.
No refrão de Máscara Negra, aproximou-se da bela odalisca.
– Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval –, disse, já agarrando a moça.
– Mas que Carnaval que nada. Você está louco. Ainda faltam duas semanas para o Carnaval.
Assustado, Jorginho levantou o tapa-olho. O uso do assessório havia deixado sua vista descansada e acostumada à escuridão. Com isso, ele ganhou naquele momento uma incrível visão noturna, tal qual os verdadeiros piratas, que usavam o tapa-olho justamente para isso.
Olhou em sua volta e percebeu que, na verdade, só ele estava fantasiado. E que não havia banda. E que só ele estava cantando. E que o rei Momo que ele via era só um gordo com um chapéu igual ao do Daniel Boom.
Queria tanto que o Carnaval chegasse logo que acabou errando a data.
Mas, aproveitando que estava embriagado, insistiu em tentar beijar a pipoqueira –sim, a odalisca era na verdade uma vendedora de pipoca com cabelo de espiga de milho e calças largas.
Ela não recusou. Afinal, quem resistiria a um cara com fantasia de pirata? Não chegava a ser alguém com chapéu de bola de futebol cortada ao meio, mas parecia não haver ninguém com tamanho bom gosto nem perto dali.
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