![]() |
|
![]() |
Cara a CaraTerça, 24 de Abril de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Não sei por quê, este banheiro tem jeito de velho. Tem ar de velho. Tem cheiro de velho. Acho que são os azulejos, amarelos, com padrões ultrapassados. Acho que é a pia de granito barata ou o mictório de aço com limão. Acho que é a luz amarela, sem força para mostrar que meus dentes ainda são brancos, bem branquinhos, sem claridade para ver bem meus olhos que embora também brancos, estão avermelhados por duras lágrimas. Avermelhados e mantidos meio abertos pelas fundas olheiras da noite em vigília.Saio do banheiro. Tomo água em doses homeopáticas, em copinho de café mesmo. Não obstante vou seguidamente ao banheiro. Não por necessidade fisiológica, mas para mirar-me um pouco mais ao espelho do banheiro velho e amarelo. E com isso ver, em cada traço do meu rosto, um traço de minha família. Passeio pela madrugada, noto que breve será dia. O sol nascerá como sempre o fez desde o nascimento do sol e seguramente fará o melhor dia da vida de alguém. Da mesma forma, para outros, será dia mais difícil que para mim. E a vida segue improvisada como um partido alto. Converso uma conversa boba com alguém quase desconhecido. Se fosse elevador, seria sobre o tempo. Faz pouco amanheceu um céu azul impecável com periquitos gritando a alvorada como se para fazer o sol escutar o quão estão felizes com sua presença. Como é velório, conversamos sobre as flores trazidas pelos colegas de trabalho. (...) Volto ao espelho, aos traços do meu rosto. Cada ruga da cara me recorda um sorriso ou um choro. Cada vez que mudo a fisionomia, admirando-me no espelho lembro de um querido e começo, com a cara, a desenhar careta no espelho: a expressão sapeca da sobrinha, o olhar doce do vô, a sombrancelha franzida da tia – fotocopiada nas primas –, o riso sincero do pai. O bocejo, meu mesmo, seguido do sino que anuncia a hora, me faz voltar à realidade. A realidade me faz lembrar que é hora de inventar mais gente nova que, no futuro, possa imitar minhas rugas muitas vezes no espelho. Muitas vezes imitará para sorrir, uma apenas para chorar.
O Aloísio que não é do campo é o
Aloísio da Cidade | 6 leitores já mijaram neste póst
|