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Campinas – São Paulo – Deus me LivreDomingo, 6 de Maio de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Que o trabalho enobreça o homem, vá lá, vou fazer uma força para acreditar, mas imagino que esse postulado tipicamente catolicista seja uma das poucas recompensas da ardorosa labuta. Há o dinheiro, claro e ele pode até ser satisfatório, mas os anos dão força à luz que ilumina outro provérbio bem popuaresco: quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro.Quem trabalha não tem tempo de nada. A não ser que seu trabalho não exija mais de você do que o que você exige da vida: cumprir seu tempo. Eu não cumpro o meu tempo. Cumpro o tempo de todos os outros. É a vida. Com o tempo curto joguei meu escritório portátil nas costas e adentrei a boléia do caminhão que transportaria algo perto de duas toneladas de equipamento no breve trajeto Campinas – São Paulo para uma emergência artística. Tudo estava obviamente dando errado. E como em todo trabalho de apagar incêndio, eu sequer havia tido tempo para comer, que dirá preocupar-me com detalhes operacionais básicos do tipo como voltar e se não voltar, onde ficar. Dureza. Cheguei. Tornei-me o multi-homem e praticamente preenchi todos os ambientes do grandioso auditório onde haveria a apresentação musical. E é justamente aí que se justifica o fato de que quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro. Não tem tempo para nada. Eu não tive tempo para nada além do que fazer aquilo que eu faço. Não olhei do lado, não comi, não planejei o que seria de mim em uma cidade enorme após o êxtase da apresentação musical, que aliás, transcorreu muito bem e às onze horas e trinta minutos eu me despedia de todos mal e atabalhoadamente para tentar alcançar um táxi, para tentar alcançar o metrô para tentar alcançar um ônibus de volta para Campinas. Dito e feito, contando os centavos no fundo dos bolsos e os trocadinhos amassados na carteira, pinguei do táxi para o metrô, que me levou ao Tietê que me levou ao balcão da Cometa que me levou à plataforma 13 onde o último ônibus da noite se mexia com menos paciência do que os passageiros lá dentro. Com os olhos já turvos de cansaço e fome, olhava para o bilhete nas minhas mãos e o letreiro luminoso na frente do ônibus. O papel dizia “Campinas”. As luzes diziam “Poços de Caldas”. É, acho que é esse mesmo. Alegria maior do que a deliciosa sensação de espalhar meus ossos pelo banco aveludado do ônibus, só mesmo a que veio do sorriso daquele Serafim em forma de mulher que passou ao meu lado. Tudo naquela mulher ofegava, não só o peito. Os lábios fremiam oceanicamente, os olhos rajavam luz e sombras e as ancas... ah, o quadril sambava. Ônibus cheio, sentei distante daquela prova da existência de Deus, fincando o pé na religiosidade e rezando para que ela também morasse (ou parasse) em Campinas, uma das muitas cidades no trajeto São Paulo – Poços de Caldas. Com as esperanças renovadas na humanidade, espalhado no assento minúsculo do ônibus, permiti que meus olhos cansados realizassem uma longa piscada. Uma piscada que durou algo perto de quatro horas e foi barbaramente interrompida pela voz estrilada do motorista: - Poços de Caldas, última parada. Com a cara amassada e os cabelos em pé, mal humorado e sem nenhum dinheiro, pisei na plataforma da pequena rodoviária do interior de Minas para encontrar uma noite fria e solitária. Da minha venerada companheira anônima de viagem, nem sinal. Devia ser campineira.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas
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