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Briga de Marido e Mulher

Segunda, 2 de Junho de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Mesmo quando a terapeuta voluntária do grupo de apoio à violência doméstica expulsou Catarina e Romualdo da sala ainda não foi dica suficiente de que havia algo errado no relacionamento deles. Constantemente no pescoço um do outro, só quando o padre do bairro foi intervir é que eles começaram a duvidar da própria razão. A reação, às vistas do padre, dava o tom do relacionamento:

- Viu, Romualdo, você é louco.

- Mas Catarina, meu amor...

- É isso, mesmo, Romualdo, e você está me deixando louca junto, é por isso que aquela sonsa da terapia de casais nos expulsou.

- Mas Catarina, meu amor, não fale assim da Rose, ele é tão boazinha...

- Ah, você gostou dela, né, seu sem vergonha...

- Minhas crianças, não pensem assim, isso só vai destruir o amor de vocês... – O padre tentou intervir com palavras doces mas o casal já estava aos tapas.

Por obrigação eclesiástica o santo homem era parte integrante da turma do deixa disso, se não fosse um de seus fundadores. No entanto, o resto da turma estava à quilômetros de distância e tudo o que o padre conseguiu foi coletar para si mesmo alguns tapas sem mira que acabaram lhe esquentando a cara.

Mais tarde em casa, Romualdo aplicava um bife ao olho roxo, enquanto Catarina fumava compulsivamente.

- A culpa é toda sua. Você sabe! – Ela pisava duro pela sala. Foi até o controle do ar condicionado. 26 graus.

- Sim, Catarina, meu amor...

- Agora eu não posso nem pisar na igreja, graças à você!

- Me desculpe, Catarina, meu amor.

- Pobre padre vieira, não tinha nada a ver com isso até você disparar a falar aquelas besteiras.

- Eu sei, Catarina, me desculpe...

- Me desculpe, me desculpe, é só isso que você tem a dizer?

Romualdo freou mais um “me desculpe” na ponta da língua e, não enxergando muito bem graças ao bife no olho, tateou quieto pela parede até o controle do termostato do ar condicionado. Ajustou para 22 graus. Para quê.

- Romualdo, você está querendo me matar de frio??!! O que é isso?!! Você não me viu mexendo nele agora há pouco?!!

- Mas Catarina...

Dessa vez ele mal teve tempo de se pronunciar, ela vinha para cima dele com todos os seus braços esvoaçantes, aterrissando na sua cabeça. Agarrado ao bife, Romualdo correu para se proteger da melhor forma que pôde.

- Volte aqui, seu sacana!! Vai chorar no colo da tal da Rose?!!

Romualdo tropeçou por cima do sofá e caiu agarrado em uma almofada, que ele usou para cobrir a cabeça. De bunda para cima, almofada numa mão e bife na outra, ele aguardava socos, chutes ou objetos arremessados, mas o que se seguiu foi o som de gavetas atiradas ao chão e caixas reviradas.

- Catarina, amor? – Romualdo ergueu a cabeça do seu esconderijo de avestruz à procura de sua mulher e encontrou-a saindo do quarto, logo atrás do revólver antigo que ele guardava.

- Quer me congelar, é? – Ela gritava e disparava a arma alucinadamente. Romualdo voltou para debaixo da sua almofada, agarrando-se ao bife como se fosse sua tábua de salvação.

Os tiros rasgavam as paredes. Logo à sua frente, o telefone caído dava sinal de linha. Ele discou 190, equilibrando o bife e a almofada.

- Emergência, boa tarde – Atendeu o policial do outro lado.

- É minha mulher, ela tem uma arma e está atirando!

- Acalme-se senhor e me explique melhor a sua situação.

- É minha mulher, ela está com uma arma e está atirando em mim?

- Ela está atirando, como assim, o senhor está ferido?

- Não, não, é ela, que está atirando.

- Romualdo, para quem mais você está me difamando? Você está dizendo para a polícia que eu sou louca, é? - Catarina agarra a extensão do telefone – Escuta aqui, seu guarda, eu não sou louca, viu?

-Não senhora, eu sei que não. Por favor abaixe a arma.

- Sim, meu amor, por favor abaixe a arma.

- Romualdo, você não está dizendo por aí que eu sou louca, até para a polícia, Romualdo?

- Não meu amor!

A tensão crescia na sala de atendimento do 190. Outros policiais se reuniram ao redor do atendimento do caso de Romualdo e Catarina.

- Por favor, senhora, abaixe a arma.

- Sim, meu amor, Catarina, abaixe a arma.

- Romualdo, você não pode fazer isso.

- Mas Catarina, eu te amo, tanto.

- Senhora, aqui é da polícia, você está atirando contra o seu marido?

- Não, eu não. Eu...

- Senhora, a senhora disparou a arma? Por favor, me responda.

- Sim, claro, eu atirei, mas eu, bem eu só me descontrolei um pouco...

- Catarina, meu amor, você ainda está brava comigo?

Os policiais ao redor do telefone ouviam tensos. Naquela sala o tempo parara.

- Não, Romualdo... Não.

- Senhora, pode explicar porque está atirando no seu marido?

- Porque, Romualdo, porque... Eu não quero te perder. Romualdo, eu te amo!

Nesse momento, a sala de atendimento da polícia militar explodiu em comemorações. Romualdo abandonou o bife, o telefone e a almofada e abraçou sua mulher. Os policiais se abraçavam e comemoravam enquanto os outros telefones tocavam alucinadamente, ignorados.


coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | 1 misericordioso comentário