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Bola de neve na cara

Sexta, 29 de Junho de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Em sua última visita ao Brasil - "última"se você julgar o Papa como uma entidade; um Papa já esteve aqui anteriormente, mas não sua atual encarnação, o sósia do Noferastu que adotou a alcunha de Bento XVI -, o Papa solicitou ao presidente da nação que a tranformasse num Estado Católico. Lula tem muitos defeitos, mas não tantos quanto acusam os seus opositores. Respeitando a diversidade religiosa destas bandas, manteve o País laico, ou seja, Governo e Igreja como coisas distintas. Se ditames católicos nos norteassem, o ideário da turma do Vaticano teria influência direta em nossas leis e constituição - o aborto e a união homessexual, por exemplo, não seriam jamais legalizados. Bom, nada muito diferente do que acontece atualmente. Mas poderia, sim, haver um ponto positivo: provavelmente seriam colocados limites dificultando o surgimento de uma nova seita a cada cinco minutos.

São tantas igrejas que o pessoal já está ficando sem opção na hora de batizá-las - aliás, imagine como deve ser difícil batizar uma igreja: para segurar um bebê desse tamanho em frente a uma pia batismal, o padrinho tem que ser no mínimo um gigante e, que eu saiba, eles não estão dando sopa por aí. Depois que "Batista", "Adventista", "Evangélica" e todos os nomes mais dignos de credibilidade já foram utilizados, quem funda uma seita hoje tem que fazer infindáveis brainstorms até escolher a nomenclatura da sua. E brainstorm você sabe: um monte de gente em torno de uma mesa falando qualquer besteira que vier à cabeça, sem censura, até que, no meio de tanta groselha, surge algo aproveitável. Ou não, já que, na maioria das vezes, a galera que está em torno da tal mesa está mais interessada nas bolachas e no suco de laranja e fala qualquer coisa só para parecer que está contrribuindo e continuar comendo. É o que parece ter acontecido no caso de religiões como "Sara Nossa Terra" e, muitíssimo principalmente, "Bola de Neve".

Tomei conhecimento da tal Igreja antes mesmo de saber que se tratava de uma. Tenho profunda aversão por adesivos de carro, desses que se coloca na traseira do veículo para dizer que, para você, o pior dia mergulhando é melhor que o melhor dia trabalhando ou, então, para mandar estressados irem pescar. Destesto isso. Poluiçao visual das piores. Se o Kassab estivesse mesmo preocupado com o tema, deveria, antes de proibir outdoors, fazê-lo com os adevisos de carro. De tanto detestar os ditos adevisos, para o meu infortúnio, nenhum me passa despercebido. Quando um carro pára em frente ao meu, a primeira coisa que faço, por mais que tente evitar, é reparar em que absurdo estampa as imediações das lanternas. Foi assim que notei um número cada vez maior de auto-colantes da "Bola de Neve Church". O que seria aquilo? Uma seita de adoradores de guerras de bolas de neve? Quando criança, eu via essa brincadeira nos enlatados americanos e queria praticá-la, mas esse clima tropical de merda sempre se opôs. Sem dúvida, bolas de neve devem ser uma coisa legal, mas ao ponto de serem adoradas no sentido religioso? Imaginei que não. Só se esse clima tropical de merda tiver afetado os miolos de uma meia dúzia que jamais sequer viu neve. Mas, como já disse, imaginei que não.

Depois, vim saber que se tratava de mais uma entre as tantas derivadas de outra interpretação dos Evangelhos, dessas que, se Martinho Lutero estivesse vivo, o fariam se arrepender de um dia ter questionado os dogmas cristãos. Então, cogitei a hipótese de o diferencial dessa ser o fato de que, ao fim dos cultos, ao invés de se confraternizarem, os fiéis jogassem bolas de neve (artificial) uns nos outros. Mas, novamente, imaginei que não. Na verdade, as missas não são tão divertidas - a grande diferença é que, para atrair "jovens", a igreja permite que seus frequentadores venham de bermuda, piercing e tatuagens (se bem que essas são mesmo difíceis de tirar). Resumindo: é uma igreja pra frentex. Tem até uma prancha de surf substituindo o altar, olha só! Mas o tal culto só é moderninho por fora; o resto é como qualquer uma das seitas pós-Lutero, com hinos e "amém, pessoal". A diferença é que quando encontram o pastor, em vez de perdirem a benção, os irmãos - ou melhor, "brothers" - mandam um "u-huuu". Bola de Neve, finalmente descobri, é o apelido do fundador. Pô, se eu tivesse um apelido desses, eu me envergonharia. O cara não só se orgulha como fez questão de colocá-lo em um negócio sagrado. Nunca na história conhecida uma religião produziu níveis tãos altos de vergonha alheia.

Por obtusa e antiquada que seja, a Igreja Católica pelo menos é mais digna - excessão feita aos sapatinhos vermelhos de quem hoje ocupa seu posto máximo. Por isso, não seria de todo o mal se o Brasil se norteasse pelos seus preceitos. A questão seria deixar os padres a uma distância segura das criancinhas. 
    

Aquela coisa toda por Leandro Leal | 23 descendo o pau