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Boca de lobo
Boca de lobo
Quinta, 20 de Setembro de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
“Olha pra frente, c...”, disse uma transeunte irritada depois de topar com a guatemalteca Rigoberta numa calçada do centro de São Paulo.
Rigoberta estava tão distraída, olhando para o chão, que já havia perdido o seu rumo. Estava impressionada com a quantidade de bueiros, contou 147 em uma rua de 400 metros.
Enquanto a maioria das pessoas desviava das bocas de lobo ou umbigos de concreto, ela curtia caminhar sobre eles.
Seu fascínio por bueiros era tanto, que colecionava recortes de jornal sobre qualquer tipo de matéria que se referisse ao assunto. A sua preferida era a que trazia a manchete “Homem entala cabeça em bueiro”.
Imagine alguém ficar com a cabeça presa por mais de uma hora, numa posição vexatória, depois de tentar recuperar a chave do carro de uma senhora, que ele nem conhecia. O pior, além do cara não ter conseguido pegar o objeto, a safada da mulher ficou com vergonha alheia e foi embora. Ele ficou preso ali até ser solto pelos bombeiros, que apelaram para um elefante adestrado para auxiliá-los no trabalho.
Rigoberta se divertia com essa história e não se abalava com o risco de que algo semelhante pudesse lhe acontecer, já que sempre que passava por um bueiro, empurrava a tampa e tentava ver o que rolava lá embaixo.
Em uma dessas espiadelas, ouviu gritos agudos e pediu a ajuda de um vendedor de guarda-chuvas, que estava parado por ali, para que pudesse descer no esgoto. Lá embaixo, enquanto saia de um morro de bitucas de cigarro, ouviu mais gritos.
“Devem ser ratos”, pensou.
Continuou caminhando até que, por um descuido do vendedor que fazia a segurança do bueiro, alguém colocou a tampa no lugar e ela ficou presa, além de não conseguir enxergar mais nada.
Foi tateando as paredes até tocar em algo muito gelado, que parecia ser grande e ter escamas. Enquanto tentava identificar “aquela coisa”, lembrava de Alligator, o primeiro filme de terror que assistiu na vida e pensou que aquilo pudesse ser um réptil mutante, que havia comido lixo radioativo.
Sem querer tirar a prova, ela saiu correndo pelo esgoto, enquanto “aquela coisa” a seguia e, ao tentar pular alguns montes de lixo, pisou em falso e caiu dentro da tubulação.
“Uahhhhhhhhhhhhh”, seu grito ecoou ao escorregar pelos tubos que tinham mais de 5 km de extensão, segundo cálculos da própria guatemalteca.
Ela caiu de cabeça em um lugar estranho, que parecia ser um cemitério indígena. Ao caminhar pelo lugar, encontrou um corpo que lhe era muito familiar, era o do seu bom e velho amigo índio monorelha. Então, resolveu cantar uma música como forma de homenagear o amigo querido. Nisso, ela ouviu um barulho estranho na tubulação e percebeu que o réptil mutante a estava perseguindo e pulou em outro cano para fugir do monstro.
Para sua felicidade, ela havia chegado ao mesmo bueiro do centro da cidade e, por sorte, a tampa estava aberta. Rigoberta escalou a parede e saiu imunda do esgoto.
Mesmo assim, conseguiu sair despercebida, porque naquela mesma hora uma multidão acompanhava o resgate de um palhaço que havia entalado a cabeça em um dos 147 bueiros daquela rua.
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