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Bloco do Bacalhau

Quinta, 24 de Janeiro de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Aquela noite parecia não ter fim para Judite. Cada vez que Malfredo se virava na cama, seu ronco ecoava pelo quarto de tal forma que chegava a deslocá-la. Tanto que naquela noite a cama do casal havia dado sete voltas completas pelo quarto. Para sorte de Judite, seu marido havia programado o despertador para as cinco horas da manhã.

Mas ele pulou da cama antes do despertador, já que acordou com o próprio ronco. Então, vestiu suas calças listradas sobre a ceroula, calçou seu chinelinho de couro e foi direto para a cozinha tirar o bacalhau que estava afogado na água.

Com carinho, segurou bem o bichinho e trocou algumas palavrinhas com ele.
- Ei amigão, é hoje que vamos arrasar no Bloco do Bacalhau.

Malfredo colocou o bacalhau numa fôrma, depois cortou rodelas de cebolas, batatas e pimentões. Sem dó nem piedade, o velho foi jogando as cascas e as sobras em qualquer lugar: na pia, no pratinho de ração dos gatinhos, no chão, no vaso de margaridas...

Enquanto isso, Judite, enfim, tinha conseguido pegar no sono. Mas seu sossego durou pouco, um barulho infernal vindo da cozinha a acordou.

Judite desceu as escadas correndo e quando abriu a porta da cozinha, ela endureceu com a cena que acabara de ver. Malfredo estava pelado sentado no chão imundo, em frente ao forno, assistindo o bacalhau assar. O barulho havia saído da panela de pressão, que acabara de explodir, onde o velho tentava cozinhar as batatas.

Duas horas depois, Malfredo, ainda na mesma posição, abriu o forno e espetou um palito no bacalhau. Depois, tirou a fôrma do forno, levou até o quarto, deixou do lado da cama e voltou a dormir.

Inconformada, Judite pegou a fôrma e a escondeu.

Quando Malfredo acordou e não encontrou a fôrma, ficou desesperado. Ele revirou a casa e nada.

- Porra Judite, como eu vou desfilar no Bloco do Bacalhau, sem o bacalhau?
- Se vira.

Malfredo pensou, pensou, abriu os armários e teve uma idéia. Pegou algumas latas de sardinha, recheou os peixinhos com farofa, disfarçou o prato com os restos de cebola, pimentões e batatas.

Chegando na praça, o segurança do Bloco do Bacalhau logo percebeu o disfarce.

- Porra Malfredo, você quer me enganar, isto é sardinha.
- Não, é filhote de bacalhau, olha aqui.
- Nada disso, é sardinha. E você sabe bem que sardinha não entra no Bloco do Bacalhau.

Triste, Malfredo pegou sua bandeja e foi até o Bloco do Sardinha, puxado por Carla Peres e sua filha Camille Vitória, e regado a muito suco de maçã, onde passou os quatro dias de Carnaval.



pausa para o café preparado por Camila Pratti | Fala aí!