Blogs do Morfina
Menu Lateral
Perticipe do Morfina Sobre o Site Fala com a gente Acesso o arquivo Participe do Morfina
Home > > Barriga interessante

Barriga interessante

Sábado, 8 de Dezembro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Entrei naquele consultório por recomendação de um amigo. Ele tinha um problema no joelho parecido com o meu e havia conseguido um tratamento eficaz, após décadas de sofrimento. A doutora indicada para avaliar o meu caso era descendente de japoneses e não devia ter mais de 1m50 e 45 quilos. Mesmo assim, ele me alertou que ela era uma figura que assustava logo no primeiro contato.

Estava acompanhado do meu pai. Ao adentrar aquela sala, cumprimentei a tal médica com um singelo bom dia, o qual não foi retribuído. Ela ordenou que eu ficasse num canto e tirasse a roupa. Tirei o casaco e perguntei se precisava tirar a camiseta.

- É para tirar tudo. Fique só de cueca. – respondeu de forma seca.

Considerei que a médica não estava bem humorada naquele dia. Mas, para tentar melhorar o clima, resolvi arriscar uma piadinha:

- De cueca? Xi, acho que vim sem... – disse, sorrindo. Entretanto, a feição dela naquele momento indicou um misto de intolerância, indignação e insatisfação. Isso me fez recuar e rapidamente informei que se tratava de uma brincadeira.

Comecei a me despir. Tão logo tirei a camiseta, ela disparou um comentário:

- Você tem uma barriga bem interessante, hein? – disse, com ar sério.

- Eu não me interesso nem um pouco por ela... – respondi, esboçando um sorriso que novamente não foi correspondido. Olhei para o meu pai que estava sentado numa cadeira ao lado e ele, percebendo o momento difícil que eu atravessava, deu uma piscadela para me apoiar.

Tirei o tênis, as meias e baixei a bermuda. Ela continuava me observando com um semblante desagradável. Fiquei apenas de cueca; e ela parou na minha frente, olhando para mim por mais de um longo minuto. O constrangimento já era enorme, porém, a coisa piorou.

- Agora fique desse jeito. – disse ela, abaixando a parte superior do corpo e fazendo a posição conhecida mundialmente como “de quatro”.

Achei bem estranho, mas obedeci. Ela, então, se dirigiu para trás de mim, segurou na minha cueca e, sem pedir licença, puxou para cima deixando minhas nádegas expostas, como se eu estivesse com um biquíni fio dental.

Em seguida, ela saiu. Disse para eu continuar daquele jeito mais uns instantes, e foi até a mesa. Virei o pescoço para trás, numa atitude parecida com a das mulheres que durante o ato sexual buscam olhar no rosto do parceiro. Consegui ver ela pegando uma caneta e vindo novamente em minha direção. Fiquei assustado. Ela foi se aproximando da minha retaguarda, com uma caneta em punho. Em questão de segundos, tentei descobrir o que ela poderia fazer com aquele objeto.

- Doutora, o meu problema é no joelho. – disse eu, em desespero. Ela não respondeu. Olhei para o meu pai e ele não me transmitiu nenhuma segurança. Ao contrário. Parecia estar tão desconfortável quanto eu e apenas levantou os ombros, como quem diz não entender nada.

Com aquela caneta, a mulher começou a rabiscar o meu corpo, o que foi até um alívio. Primeiro, riscou as minhas coxas. Depois desceu os riscos mais para baixo da perna e, por fim, rabiscou até a minha bunda. Em seguida se afastou e começou a observar. Mandou eu deitar numa maca e mais uma vez ficou analisando os rabiscos. Em poucos segundos diagnosticou uma baita contratura na minha coxa.

- Você tem uma contratura nessa região e está com o peso muito acima. Tudo isso está sobrecarregando o seu joelho.

No mesmo dia, comecei o tratamento de acupuntura e fisioterapia. Dei início também a uma dieta bem rigorosa. Meu objetivo não era emagrecer simplesmente para curar o joelho. A idéia principal era eliminar de uma vez por todas aquela barriga e, dessa forma, me tornar um ser humano menos interessante aos olhos de uma fisiatra.    

vem que é bão com a Rogéria | 3 vieram