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Bafo de estresseSábado, 9 de Junho de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor O cheiro exalado não deixava dúvidas de que ele estava mal naquela manhã. Apesar da distância entre uma baia e outra, era impossível para ela não sentir que as coisas estavam ruins com o colega de trabalho. A maneira agressiva com que ele apertava cada tecla do computador, numa digitação ríspida e mal humorada, era mais uma indicação de que teriam um dia bravo pela frente.Trabalhava ao lado dele há mais de quatro anos. Contando que conviviam no mínimo oito horas por dia de segunda à sexta, isso quando não almoçavam juntos no bandejão, Darlene tinha horas de vôo suficientes para avaliar o humor de Nivaldo só de olhar para ele. Nos últimos tempos, porém, não precisava nem mais olhar. A análise era feita pelo faro. Quanto mais irritado mais o cara fedia. Não era um cheiro de suor e nem disso que vocês podem estar pensando. Apesar de tudo, Nivaldo era um sujeito educado. E se sofria de flatulência sabia segurar para momentos íntimos, alheios ao âmbito profissional. Era um odor mais refinado que ela infelizmente percebia. O hálito de Nivaldo nunca fora dos melhores. Desde o dia que adentrou aquela sala pela primeira vez e a cumprimentou Darlene sentiu que havia algum problema de estômago no homem. Sempre que conversavam, ela sentia o problema e, com o tempo, foi reparando que havia dias e momentos de pico. Inicialmente, pensou que isso estava relacionado à quantidade de cigarros que ele consumia. Depois, descartou essa possibilidade. O fumo talvez até minimizasse aquela fragrância detestável. Percebeu, enfim, que o fator cheiro estava diretamente relacionado à irritação do colega. Quanto mais nervoso e estressado mais emanava podridão. E o ambiente de trabalho não ajudava muito nisso. Nas boas fases, Darlene tentava acalmá-lo. Tudo bem que estava agindo em benefício próprio, mas não deixava de ser uma boa ação. Logo no início da manhã, oferecia pães de queijo, bolinhos de chuva ou qualquer outra guloseima para saudá-lo de forma positiva. Os agrados seguiam ao longo do dia. Darlene fazia gracinhas, contava piadas e procurava descontrair o rapaz. Só que foi perdendo a paciência e a boa vontade. O cara parecia querer mostrar para todo mundo que era nervoso. Criticava todos, não admitia barulho, reclamava do trabalho, do salário, do horário, das escalas, dos outros setores da empresa, do chefe, da secretária e até da senhora que servia café. E o fedor ia aumentando progressivamente. Nos últimos meses, Darlene sentia o cheiro pela respiração de Nivaldo. Cada vez que respirava e soltava o ar vinha aquele perfume de bosta. Incomodada, começou a acender incensos na sua própria baia. A situação melhorava, mas Nivaldo não aceitou. Sem saber que era por sua culpa que aquilo ocorria, reclamou com veemência. Ela retrucou que o cheiro do cigarro dele era pior que o incenso, então ele fez um pacto de sair da sala para fumar. Não havia mais escapatória. Cada respirada do sujeito tornou-se insuportável para ela. Estava pensando em pedir demissão para não agüentar mais aquilo. Darlene segurou o quanto foi possível, mas naquele dia em que ele praticamente dava murros no teclado e respirava ofegante ela não suportou. - Quem peidou? - Gritou Darlene, olhando fixamente pra Nivaldo. - Não fui eu. – Disse ele, olhando perplexo para Darlene. - Nossa, de novo Nivaldo. – Ela fez a ironia, com as mãos tampando o nariz. - Você está com algum problema? – Ele não havia entendido ao certo o que ocorria, mas percebeu o conflito pessoal. - Eu não, mas você está. Ta louco, precisa cuidar melhor do seu estômago, ou do fígado, ou dos dentes... – Darlene pronunciou as últimas palavras e saiu correndo da sala. A atitude intempestiva da moça não foi bem interpretada pela maioria dos colegas. Nivaldo também fez mil reclamações dela para a gerência e disse que não gostaria mais de trabalhar ao seu lado. Darlene foi transferida de sala e, apesar da localização pior da sua nova mesa, voltou a trabalhar com mais tranqüilidade. Ela só não gostava quando encontrava Nivaldo no bandejão. Ele fazia questão de cumprimentá-la de perto para mostrar que era superior e não guardava ressentimentos. Já ela não conseguia almoçar direito naqueles dias. |