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As mentiras de mamãeSexta, 9 de Março de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Você já deve ter ouvido a frase “não existe ninguém burro”. A primeira vez, provavelmente na infância: sua mãe disse isso com a intenção de censurar seu pouco caso para com priminhos e coleguinhas pouco dotados intelectualmente. Mamãe, em nome de sua infinita bondade, faltou com a verdade em outra ocasiões, como quando disse não haver crianças feias. Queria novamente impedir você de mangar dos seus amiguinhos, dessa vez por sua aparência abjeta. Graças às mães e suas pequenas inverdades (também conhecidas como “educação”), somos impedidos de nos tornar sádicos incorrigíveis. Ou, pelo menos, esse processo é retardado por um tempo.Não que acreditássemos nessas lorotas, mas as respeitávamos, como se respeitam leis. Como leis de fato, seu descumprimento resultava em sanções: quando se é pequeno, não dá para tirar um sarro do seu primo vesgo na frente da sua mãe sem levar umas chineladas. Já quando você cresce, pode zombar do caolho à vontade – mas sempre convém verificar se a velha não está por perto. Adultos, nos sentimos à vontade para, lembrando da infância, atestar a feiúra do Juquinha e a estupidez do Aníbal Júnior (que, por sinal, tinha um nominho de lascar). E já que é tempo de reavaliar a veracidade do que mamã falava, encare os fatos, amigo: você não é especial. Junto com as verdades contestáveis que contavam para regular nossa conduta, as genitoras também vinham com o papo-furado motivador. Diziam que éramos capazes, inteligentes e, claro, mais bonitos que qualquer um – o que, num mundo sem crianças feias, era um grande mérito. O objetivo era nos fazer dar duro para ser alguém. Hoje, quando, apesar de todo o nosso esforço – ok, nem tanto esforço –, não conseguimos ser alguém, elas nos dizem que já somos alguém, somos especiais. Ah, sim, claro. O mundo está cheio de gente especial. Principalmente nas Casas André Luiz e na APAE. Não, não há bilhões de pessoas especiais no mundo. Nem milhões, nem milhares. Talvez, umas poucas centenas. Essas, sim, alteram o rumo dos acontecimentos, fazem coisas memoráveis – antes que o engraçadinho diga, não defino este texto como tal. Claro, sob certo aspecto, somos importantes para algumas pessoas – tipo você para a sua mãe. Mas não podemos nos julgar o que nossas mães querem fazer crer que somos. Trata-se de simples questão de lógica: se as massas fossem compostas unicamente por pessoas ímpares, elas na verdade não o seriam, já que não haveria como distingui-las das outras. Seja mais legal com os outros no trânsito. Deixe de buzinar freneticamente, exigindo que abra-se espaço para a sua passagem. O tráfego não é composto de réplicas de sua mãe. Que, por sinal, anda sendo bastante lembrada pelos outros motoristas.
Aquela coisa toda por
Leandro Leal | 4 descendo o pau
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