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Arquitetura Corporativa de Toalete

Terça, 13 de Fevereiro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

De banheiro em banheiro vou me deparando com as mais diversas bizarritudes da arquitetura de toalete, enquanto refletimos em algum novo tema para esta coluna. De cachaça em cachaça o leitor e eu colecionamos historietas de pixações na porta do cubículo, conversa fiada sobre mulher - digo, muié - na hora de lavar as mãos, diarréias em banheiro público sem papel higiênico, xixis eternos pós-choppada, placas indecifráveis de Masculino, Feminino ou Metrossexual - seja o que isso for -, propagandas luminosas com piadas fracas em cima do urinol e descargas pitorescas com direito a gotinhas escorrendo no dedo dos bravos que ainda têm coragem deste ato de higiene e saúde pública que é apertar o botão do Deus-me-Abençoe depois de concluída a obra no sétimo chope.

Esta semana estive em um banheiro que era o último refúgio dos pobres fumantes. Veja só: primeiro vieram as áreas de fumantes nos restaurantes, em que segregava-se por motivos de saúde, as grávidas e crianças e tal... ainda era uma coisa decente, não havia perdido o charme de fumar um cigarrinho e soltar a fumaça fazendo bico e fingindo que não queria tossir. Em seguida, as empresas começaram a criar aqueles cantinhos do fumante e eu, que não era fumante nem nada, ia lá só pra socializar. Afinal, ou você toma café e fuma ou você não constrói amigos, esta é a máxima no mundo corporativo - até parece que você vai fazer algum amigo por mérito ou performance no cumprimento das obrigações e convenções, ora, todos sabem que os amigos nascem mesmo é das contravenções! Finalmente começaram a mandar os fumeguentos para o corredor do andar, aquele ambiente bonito, acolhedor, cinza, com 1,2m de largura, em que todos conversavam um ao lado do outro, como se fosse a santa ceia na era industrial. Mas nenhum destes é de perto tão deprimente quanto uma empresa que visitei: os caras tinham que fumar no banheiro! Difícil saber se isso era bom ou ruim, já que era um tal de competição de resíduos super-odoros, uma salada de fruta, bem, de fruta não, mas uma miscelânea de cheiros fortes que provocava uma certa estranheza em quem chegava assim, como eu, desprevenido.

Então entrei em uma empresa cujos donos eram butequeiros de primeira e, obviamente, fumavam maços de maços de cigarróides. E todo mundo tinha que engolir aquela merda de fumaça sem sequer o ônus de fazer um novo amigo, como no exemplo supracitado. Os não fumantes então começaram a se juntar em um movimento belicista: guerra ao cheiro do cigarro. Tentou-se perfuminho daqueles de spray que gruda na parede, não deu certo. Tentou-se então cheirinho automotivo, tampouco foi suficiente: o exército da fumaça tinha uma bela artilharia no meio de seus dentes amarelos. Então, em um gesto de desespero, depois de mandar dois cachorros-quentes com 17 acompanhamentos - desses em que a salsicha é mera coadjuvante -, o Mané voltou do almoço e logo soltou aquela bufa sussurrada por alguns longos segundos. Apesar da nojeza do cheiro, os não-fumantes só queriam era a vitória, não importava como e celebravam a esperança da iniciativa. E assim foi. A Adriana, no dia seguinte, estava peidando sem parar na cafeteria; o Boris, na sala de reunião; o Luis, na sala do chefe. A cada cigarro acendido, parecia que rasgava uma cueca ou uma calcinha. Em poucos dias todos peidavam em suas cadeiras de trabalho, parece que demarcando território, sem o menor pudor. Até que a coisa pegou meio mal, os computadores começaram a dar problema - tecnologia disse que o metano não deve ser compatível com o Windows. Então, um dia, o tiozinho do cachorro-quente ficou milionário com os pedorrentos que se municiavam com seu dog com purê de margarina e milho verde em lata, comprou a empresa e determinou, mui tirano, que todo mundo deveria peidar no banheiro.



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