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Ardume

Segunda, 10 de Março de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Seu Júlio apareceu na hora certa porque a mãe já não parava de reclamar sobre eu fazer alguma coisa da vida. Eu acho que ela não gosta é de surfe, porque se fosse para eu ficar em casa vendo novela ela não reclamava, mas como eu gostava mesmo era de onda, ela chiava.

O trabalho com seu Júlio nem conflitava com as ondas. Eu entrava já no meio da manhã no restaurante e saía no meio da tarde. Tinha até espaço para guardar a prancha se precisasse, mas eu não levava não. Ía para casa tomar banho e guardar a prancha certinho, na capa, lavadinha. Também aproveitava e mostrava para a mãe que eu estava tomando banho e vestindo roupa boa para ir trabalhar. Ela nem falava nada.

Mas não é só por isso que eu gostava do seu Júlio. Acho que na verdade, todo mundo gostava do seu Júlio. Sabe aquele gordão que é gente boa com todo mundo? É o próprio. Fala alto, de braços abertos, tem aquela barba curtinha e te trata como se fosse família mesmo.

Nem seis meses de trabalho no restaurante dele e ele já estava me tratando como filho. Abraçava, dava conselho, perguntava do mar e do surfe. E ele até que foi me ver surfando cedinho um desses dias. Parou com a caminhonete carregada de legumes e verduras na avenida da orla e ficou lá me olhando, sentando no capô, de óculos escuros e fumando aquele charuto fedido. Era uma peça.

Seu Júlio vivia dizendo que a ía despregar a barriga do balcão do restaurante, me colocar de gerente lá e voltar pra São Paulo. Só queria saber de dinheiro no bolso, mas eu acho que ele gostava mesmo de Ubatuba. Ah, eu sei lá, ser gerente é muita responsabilidade, mas ninguém conhecia aquele restaurante como eu. Eu sabia onde estava tudo e o que todo mundo tinha que fazer. Só a receita dos molhos de pimenta é que ele guardava segredo de mim.

Mas não guardou muito tempo, viu.

Num fim de tarde ele me chamou de lado e me perguntou se a tarde estava boa pro surfe. Era inverno, o mar não estava ruim, mas ninguém surfa no final de tarde, né? Quando eu falei isso, ele abriu aquele sorrisão. Não me deixou escapar, queria que eu voltasse ao restaurante às nove horas da noite, porque eu ía ajudar a fazer os molhos de pimenta.

Seu Júlio era dono da cozinha naquela noite. Temperos em cumbucas, as facas afiadinhas, uma garrafa de rum na ponta da mesa e muito samba no rádio. Ele ía indicando e eu ía cortando, picando, lavando os frascos. Tinha que ser cuidadoso. Nenhuma pimenta ía com semente pra conserva.

“Essa é a chilli, ou dedo de moça. Comum. Mas repara como essa é menor e mais alaranjada. Coisa boa...” Ele explicava. “Essa aqui é uma jalapeño.Mexicana. Forte...”. “Essa aqui é uma habanero”. E por aí vai. Cada ordem uma golada no rum. E ía ficando pastoso e pastoso. No rádio, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Chico Buarque.... E eu lá, picando, tirando semente e cuidando de prestar atenção em cada detalhe, porque não era qualquer um que podia ver fazer os molhos de pimenta do seu Júlio.

Até a hora que a porta rangeu pra dentro. Aí tudo mudou. Eu perdi a concentração. Ela era magra, bem branquinha e tinha um cabelão preto que dançava nas costas. Era alta e tinha um sorriso encantador. Dona Denise, esposa do Júlio iluminava o restaurante. Eu já havia visto ela antes, claro, mas ela vinha toda perfumada, no ritmo do samba que tocava no rádio. Aquelas pernas enormes abriam a saia como luz do sol entre as árvores. Coisa linda.

Entrou sorrindo e sambando, nos chamou de meninos e encostou a cabeça no ombro de seu Júlio. Eles nem se conversavam. Não precisava. Ela enfiou a mão no bolso da camisa dele, sacou um charuto daqueles que ele gostava, cortou a pontinha, acendeu o outro lado, deu duas tragadas pra igualar a brasa e colocou na boca dele. Era impressionante, ela sabia quando ele ía tragar e tirava ou devolvia conforme a vontade dele. Enquanto isso ele cortava alho, colocava nos frascos e dava grandes goladas no rum.

O cheiro forte de manjericão se misturava com o charuto. Dona Denise corria a mão pela cintura dele e se esgueirava por entre as facas e os temperos como se fosse uma gata. Tirava o charuto da boca dele, tomava um gole de rum dele, devolvia, dava gosto de ver. Seu Júlio chamava a minha atenção para quando eu estava errando, olhando para as pernas da mulher dele. Pimenta não pode ir úmida para a conserva. Tem que ser seca no pano de prato. E pode jogar as sementes todas na pia.

O cheiro do tempero misturado com o charuto, o samba malandro no rádio e as pernas da Dona Denise foram as melhores memórias que eu tive daquele restaurante, que faliu um mês depois. Seu Júlio e dona Denise voltaram para São Paulo.

Eu não aprendi nem uma receita. Esqueci tudo quando vi ela sambar ao redor dele. Mas eu guardei muito naquela noite. Primeiro a queimadura nas mãos, de tanto tirar semente das pimentas. Nem dormi de dor. Segundo, a sensação de que aquilo sim era o que o povo chama de alma gêmea, quando um casal se entende sem trocar palavra. E em terceiro lugar, saudade. Saudade do sujeito bonachão que dizia que as pimentas tinham um segredo guardado à sete chaves, mas conforme ía ficando bêbado, derrubava grandes goladas de rum dentro das conservas.


coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 4 sublimes almas