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AndarilhoQuarta, 30 de Janeiro de 2008* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Tentamos dormir enquanto o tempo urge. Buscamos o descanso regado a mordomia, a qualquer custo, e os prazeres da vida escorrem pelas mãos quando alcançados, pois eles nunca estarão definidos ao continuarmos procurando por algo que nunca encontraremos.Conheci um senhor certa vez, desses peregrinos. Disse que veio a pé de Pernambuco até São Paulo, trazendo consigo apenas um sapato e a roupa do corpo. Contou que viu de tudo em sua vida, já beirando o centenário, conheceu todo tipo de pessoa e situação. Sofreu, chorou de saudade e de dor. Riu de seus tropeços e, no riso, achou forças para seguir como um caminhante por seu próprio mundo. Criou mais de uma família e encontrou a vida na solidão, mas experienciou também alegrias e vitórias, uma vez que quem não tem nada, enxerga a beleza de cada passo como a chegada ao topo. Perguntei o que ele fazia da vida hoje. Respondeu que era um andarilho, que fazia o que queria, que comia quando queria e que jamais dormia, pois quem dorme perde a hora e a beleza da noite. Mas disse que sonhava a todo momento, mesmo acordado. Do mesmo jeito que chegou, sorrateiro, sumiu entre folhas e árvores, cantarolando uma canção antiga qualquer. Pude apenas reparar no andar desleixado e simples, sorrindo para o céu e para o chão. Pensei em acompanhá-lo, mas com certeza este seria um desafio impróprio, pretensioso demais para um rapaz de cidade que tem tudo, que se apega a tudo e que deixou de ser um andarilho muito antes de se tornar adulto. Após a conversa, senti-me velho demais para seguir os meus passos rumo ao incerto, preso na condição de gente, enquanto o velho homem, um tanto parecido com bicho, estava mais à frente de ser humano, buscando o real sentido de ver e aproveitar tudo, sem as ilusões alugadas do cotidiano. E, como que num gesto de aprendiz, decidi jogar fora algumas destas ilusões. Assim, quem sabe, poderei ver o mar de outros povos e sentir o ar em outras janelas, sempre abertas para o novo, o cru e o simples viver, pelo que eu quiser ser e, claro, sem dono.
Canalizado em PVC por
Ivan Volpe | Fale bem, fale mal... Fale alguma coisa
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