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Amor de verdade
Amor de verdade
Quarta, 9 de Maio de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Foi meu primeiro porto seguro. Primeiro amor, dizem. Nasci sem ar e seu colo foi o alívio que eu precisava para a cabeça cansada, pesada, tentando compreender o que acontecia.
Mas amor de menina, de primogênita, sempre parece ser mais voltado ao pai. Mesmo que não seja verdade, o inconsciente coletivo crê nos complexos, e fala que a filha é do pai e o filho é da mãe. A mãe, então, tem aquele ciuminho bobo da filha e do pai - ou marido - e sente-se preterida. Que bobagem!
Eu sempre fui a cara da mãe. Sempre ouvi isso, e ouço até hoje. Olhos do pai. Olhar da mãe. Melancólico, transparente.
Talvez por isso me enquadre nas filhas que passaram boa parte da vida admirando a mãe, mas tentando ser diferente. Ela sempre foi linda, vaidosa. Negar isso era uma estupidez. Foi natural, possivelmente foi por medo da comparação... quanto mais nos aproximamos de uma imagem, mais comuns são os comentários comparativos. Se nos distanciamos por completo, não há analogias a serem feitas. Cria-se a autenticidade. Tsc tsc, quanta bobagem! Quanta ilusão!
É bonito crescer e ver o quanto temos de nossos pais em nossas atitudes. O quanto pensamos como eles pensam, aquelas coisas que questionávamos e jurávamos que jamais passariam em nossas mentes. É reconfortante olhar minhas expressões e reações e sentir a familiaridade no ar, perceber que já vi aquilo antes no rosto de alguém que amo e admiro. Saber lidar com isso.
Dizem que filhos são milagres. Eu acho que milagres maiores são as mães. Porque ser filho é fácil. Ser mãe é um desafio. É trabalho pra vida toda. É preocupação eterna. É amor incondicional. É dedicação. É abdicação. Filhos, todos somos. Mães, apenas algumas. E a existência delas no mundo me faz crer nos tais milagres. A passagem da mãe em nossas vidas - seja ela breve, discreta, diária, intensa - nos faz quem somos, e nos ensina a amar.
Este texto é para as mães. À minha mãe, à sua, às que aqui estão e às que já se foram. Às mães das amigas que nós, filhas, adotamos como nossas, às queridas mães das nossas queridas mães. Mulheres que sabem, na prática, o que é um verdadeiro relacionamento, porque não medem esforços e não aprisionam o amor. Porque conhecem sua eternidade como ninguém.
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