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Ah, entãão tá bom!!!

Terça, 30 de Janeiro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Sabe quando você liga para uma pessoa para conversar objetivamente sobre algum assunto e atende aquele coadjuvante, tipo a sogra, a cunhada, a secretária, o marido da amante, enfim, aquela pessoa que você é obrigado a cumprimentar sem ter o menor assunto a dizer? Você cumprimenta e tal, mas quer realmente falar com outra pessoa? Nesta situação cotidiana, alguns percebem o constrangimento da situação e vão logo passando o telefone à pessoa de destino; outros, não sei por quê, realmente se preocupam de sua vida – ainda que você não dê a menor bola para eles – e você acaba levando um papo, primordialmente sobre sua vida, já que você não retribui nenhuma de suas perguntas. Mas o que realmente irrita é quem não faz um nem outro e fica com aquele sorrisinho – se for no telefone é pior ainda que eu fico imaginando o sorrisinho com requintes de babaquice – mas enfim, fica com aquele sorrisinho que não é hipócrita, é muito pior, é real, mas não tem conteúdo nenhum, é o mesmo sorrisinho da amiga gordinha simpática que ri de tudo, da aeromoça “Bem vindo a bordo!!!”, da atendente do McDonald’s “Acompanha sãndei, senhor?”, um sorrisinho tão bem feito que parece real, mas não é. A diferença é que nem o dono do sorriso se dá conta, acha que tá sorrindo mesmo. Mas o pior, o pior mesmo é o diálogo do “entãão tá bom”. Aquela seqüência básica que o leitor sem dúvida já sofreu – se é que não sofre constantemente:

- Alô?, você pergunta.
- Alô! Quem fala?
- É o da Cidade. Quem tá falando?
- É a Genoveva, secretária do Doutor Arnaldo.
- Tudo bem, Genoveva?, você pergunta perigosamente simpático.
- Tudo bom, da Cidade. E você?, ela contesta desnecessária.
- Eu?, você estranha e prossegue. Tudo bem!
- Ah, entãão tá bom!!!, completa a mala. E só então você consegue dar seqüência e falar com o maldito chefe.

Na segunda ou terceira vez você aprende e tenta cortar a conversa, sendo menos simpático:

- Alô?, você pergunta.
- Alô! Quem fala?
- É o da Cidade. Posso falar com o Doutor Arnaldo?, você arremeda direto ao assunto.
- Oi, da Cidade, é a Genoveva, secretária do Doutor Arnaldo., ela se apresenta, incansável. Como vai, da Cidade?
- Tudo bem, posso...
- Ah, entãão tá bom!!!, interrompe novamente a mala com seu bordão. E só então você consegue dar seqüência e falar com o maldito chefe.

Então você evolui mais e faz o possível para cortar o mal pela raiz:
- Alô, Genoveva? É o da Cidade. Posso falar com o Doutor Arnaldo?
- da Cidade? Tudo bom, da Cidade?, diz, transbordando simpatia.
- Tudo bem, posso...
- Ah, entãão tá bom!!!, ela interrompe novamente, implacável, enquanto você come o bocal do telefone de raiva.

Quer dizer, observe bem estes minutos jogados no lixo. Imagine agora que é uma pessoa com quem você fala 10 vezes ao dia, tipo chefe, esposa ou amante. Com uma pitada de aritmética elementar, multiplique estes dois ou três minutos de conversa fiada por 10 vezes e por 365 dias (ou 250 no caso do chefe) e você terá o resultado sensacional de 10.950 minutos conversações inúteis do tipo “Entãão tá bom!!!” na sua orelha. Com aritmética mais avançada, nota-se rapidamente que são 182,5 horas e aplicando equações de cálculo diferencial III, chega-se ao sensacional número 7,6 dias ao ano ouvindo o tal do “Entãão tá bom!!!”. Haja santo.

A única saída que eu encontrei foi a de inventar personagens distintos para cada ligação, de forma que a pentelha não toma intimidade e te remete direto ao assunto: Cabo Nélson, Sezefredo Neves, Raimundo da Oração, Juca Bala, já anunciei até Macunaíma para a contrapartida testando os mais diversos heterônimos esquivando no melhor estilo Cassius Clay do infeliz bordão. Hoje acredito inclusive que é um bom incentivo à criatividade. Você não concorda? Concorda? Ah, entãão tá bom!!!


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