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Adeus à pinga canelinha

Sexta, 2 de Março de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Nos últimos anos, dia sim, dia não, eu atravessava a rua da minha casa para ir ao bar do seu José. Fazia minha fé no bicho, jogava um dominó com os tiozinhos das redondezas, tomava uma pinga canelinha no balcão de fórmica do boteco. E muitas vezes me inspirava para escrever aqui no Morfina.

Lá, eu ganhei dinheiro jogando no urso, perdi jogando na maquininha e quase fui assassinado por causa de uma briga na sinuca. Acompanhei os jogos de Portugal na copa ao lado do seu José (que é português), cantando o hino antes da peleja (“às armas, às armas...”).

Pois bem, chegou a hora de ir. Estou mudando de casa e, conseqüentemente, de boteco. Esta é minha última sexta-feira com a companhia da fórmica rósea que tanta alegria me deu.

O grande problema é que o boteco em frente ao novo prédio pertence a um cara chamado Sinvaldo. Já pensou dizer “vamos ao bar do Sinvaldo?”. Não rima, não tem ritmo, não dá certo. Além de tudo, o referido bar tem balcão de granito, o que é um desastre para um boteco. E, durante o dia, funciona como restaurante. Pode?

Mas fazer o quê? A vida evolui, a gente muda de casa, e acaba mudando de boteco. O texto sem criatividade de hoje já é um reflexo do novo bar. E foi escrito às sete da manhã, sem nenhuma inspiração da pinga canelinha.


por Kleber Carrilho | [n] comentário.