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Abissolutamente Nada!
Abissolutamente Nada!
Segunda, 21 de Abril de 2008
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
"Essa é a juventude que quer mudar o país? Vocês não entenderam nada. Abissolutamente nada!"
Este foi o discurso-chilique de Caetano Veloso após as vaias recebidas em um daqueles festivais de música brasileira do TUCA, em que ele e Gil, com o suporte dos psicodélicos Mutantes, introduziam as primeiras dissonâncias elétricas na bossa-velha. E até hoje "Tropicália: Ou Panis Et Circenses", compilação que dá a largada na antropofagia musical brasileira das décadas seguintes, é extensamente aplaudido pela crítica musical - provavelmente os mesmos que os vaiaram no TUCA - como o melhor disco de música brasileira de todos os tempos.
Não sou crítico de música nem mesmo entendido do assunto o que importa mesmo nesta crônica é tudo aquilo que tenha a ver com toalete e admito que "Domingo no Parque" não menciona nenhum de nossos célebres interlúdios fisiológicos. Mas tenha calma, leitor, chegaremos lá dando uma volta pelo oriente, começando pela Índia.
Aos ocidentais que não são Do Campo ou que nunca estiveram em um país do oriente, causa estranheza um toalete sem privada: um mero buraco no chão com dois suportes anatômicos para os pés meio abertinhos, para caber certinho um cagão agachado. No entanto, a maré do turismo levou consigo a demanda do ocidental por um trono decente para repousar suavemente suas nádegas urbanas, demanda prontamente atendida pelas pousadas de lugares turísticos como Índia, entre outros. O problema da Índia é que ainda não chegou por lá o costume de limpar o assento com algum tipo de produto que não seja uma vassoura de piaçava. Resultado: é inumano sentar-se em um assento de plástico que parece de mármore de tanta nhaca.
E Caetano exclamaria comigo: "Os indianos não entenderam nada! Abissolutamente nada!"
No Camboja chegou o banho quente. Também demanda do turista ocidental com seus petrodólares e super-euros. Entrei no banheiro para um merecido banho quente em Siem Reap, cidade-base para conhecer o complexo de Angkor, sede do finado império Khmer, depois de longo traslado envolvendo ônibus, fronteira, caminhada de mochilão e táxi off-road - no melhor estilo mad-max. Observando o curioso complexo de torneiras do chuveiro, logo me dei conta de que sim, tinha água quente: um chuveiro inteirinho só para água quente e um outro inteirinho para a água fria. Esperto, não? Imaginem o malabarismo para misturar as duas águas em pleno vôo para elas acertarem as costas em uma temperatura decente...
E Caetano novamente me ajudaria: "Os cambojanos não entenderam nada. Abissolutamente nada!"
Imagino, analogamente, um chinês, tailandês, indiano, nepalês, tibetano, vietnamita, vendo o Da Cidade entrar no banheiro de chinelas, com um pregador de roupa no nariz, um rolo de papel higiênico cor-de-rosa na mão, um desodorizador, um vidro de pato purific e uma flanela, um café e um jornal - quando para eles cagar deveria ser um ato tão mais simples - e pensando em voz alta:
"Esse gringo não entendeu nada. Abissolutamente nada!"
Enquanto isso o revolucionário Caetano caga cantarolando "Sem Lenço Sem Documento" em sua perfumada suíte em Salvador, sem reclamar de mais ninguém.
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