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Abdução tardia

Sábado, 10 de Março de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

E eu bebi muito a semana inteira! Me perdi nas contradições orais, amolecendo os erres (Rs) e trocando éfes (Fs) por vês (Vs), tanto que perdi grandes oportunidades de amores rápidos e pegações, muitas vezes trocados por tapas na cara e chutes nos culhões. 

Por isso mesmo, decidi não beber nada naquela sexta feira fresca cheia de Sol. E consegui passar o dia inteiro sem beber! Até que foi fácil, pois a ressaca acumulada ajudou bastante, me afastando de qualquer recipiente transparente que contivesse líquidos borbulhantes amarelados ou pedaços de frutas e gelo.

E caminhando pela praia num pôr de Sol avermelhado que tocava o mar em nuvens púrpuras, pude observar o porquê de chamarmos esta sensação amarga e dolorida de ressaca: o chiado constante das ondas atacando com toda sua ira a paz da areia e a dureza das pedras, mexendo o vento num vai e vem vertiginoso, assemelhando-se aos efeitos alcoólicos em nosso labirinto auditivo, enjoativo e incessante. Isso sim é ressaca, troque o mar por cabeça pesada e as ondas por estômago cheio e pronto! 

Enfim, mesmo alienado à beleza daquele céu e daquela tarde que envolvia os casais roubando-lhes o pudor, pude observar ao longe o primeiro brilho alvo em meio ao colorido escurecido pelas horas, a primeira estrela que carregava a noite em sua luminosidade Dalva. 

Segui aquela estrela como se fosse certo nosso encontro. Percorria as areias grossas e pardas do Campeche, tentando alcançar as dunas ao fundo, numa frenética busca pelo brilho irreal daquele ser celeste. Foi então que a estrela começou a me seguir, e a crescer repentinamente frente os meus olhos sóbrios e temerosos.

Tentei correr para não ser esmagado pelo astro flamejante, agora amarelado e majestoso, mas não pude controlar os passos nem a mente, que simplesmente se entregaram ao brilho hipnotizador. E a estrela iluminou todo o mar e todo o céu, quase me cegando com seus raios intensos.

Parei de correr involuntariamente.

Protegi o rosto e pude observar sua forma arredondada, reluzente como cromo em seus mais de trinta metros de diâmetro, com crosta firme e sem irregularidades, de onde brotavam, como que encaixados perfeitamente sob o manto metálico, diversos holofotes de luzes brancas, amarelas e negras.

Isso mesmo, uma luz negra, não dessas que refletem o branco em casas noturnas, mas em cor preta literalmente, iluminando em escuridão, como nunca havia observado na vida, nem ouvido falar sobre.

A luz tocava meu corpo, me deixando totalmente imóvel. De certo, não fosse aquela luz, eu estaria muito longe dali, revelando meus dotes atléticos de muitos metros rasos em pouquíssimos segundos. Um som estrondoso acompanhava a aparição, como dez caminhões acelerando em subida íngreme, alguns efeitos metálicos agudos e um vai e vem de timbres em fase, alteravam ainda mais meu estado emocional, totalmente abalado pela experiência.

Alguém poderia me ajudar? Onde estariam os casais em seu amasso pela praia? E a polícia, a guarda costeira?

Olhei para trás, num esforço gigantesco, girando somente o pescoço com dificuldade e tentei encontrar alguém para me socorrer frente aquela abdução maligna. Pude observar um dos casais em bolinação, ele com a mão dentro do biquíni dela, que tinha uma expressão facial que o condenava e, ao mesmo tempo, aceitava o ato indecente.

Mas não era hora de me imaginar na situação felizarda do rapaz e, me desdobrando em concentração, pude observar que eles estavam completamente imóveis, como que congelados no tempo, sem vento nos cabelos, sem movimentos quaisquer, absolutamente nada.

Pude compreender que tudo estava diferente. Talvez fosse só ilusão, pesadelo, sei lá. E o medo, vagarosamente dava lugar a um sentimento novo, diferente e pleno: pavor! 

Meu corpo tremia enquanto minha mente dava voltas para encontrar respostas e minha vida toda ia passando pela memória. Logo pude ver algo se mover pela superfície lisa do que então já não mais podia ser considerado uma estrela, e sim, um objeto voador das estrelas.

Uma porta! Sim, aquilo era uma porta, se abrindo como fatia deslizante da esférica nave, revelando um interior alvo e limpo, de onde uma silhueta magra vinha caminhando elegantemente, com passos pensados e leves até a extremidade de uma recém formada escada luminosa. 

Eu já não podia me controlar, as lágrimas escorriam pelo rosto e os gritos nasciam do intestino aos ouvidos do ser que se aproximava tomando forma. Uma imagem, um som, um susto, o berro em meus ouvidos: 

– Falaê, Chefia! Demorei mas cheguei... E aí, cagou nas calças, não é mesmo? Hahaha... Tinha certeza que ia causar isso em você, mas não pude evitar a oportunidade de usar as luzes, o som e a escadinha com luz! Hahahaha... Foi demais, você devia ter visto a sua cara! Ah, peraí, olha aqui... 

 Aquele ser, que agora me deixava totalmente em choque, tirou do bolso uma pedrinha transparente lapidada, de onde surgiu, como em flash de máquina fotográfica, uma tela de luz, que não era feita de matéria, mas sim, uma projeção cinematográfica de partículas, em formato retangular no ar, do nada, exibindo meu rosto apavorado, gritando e medonho, chorando e com os olhos arregalados e vermelhos.

Ele tinha todo o acontecimento... filmado! Isso mesmo, aquilo já estava se transformando em uma viagem virtual. Uma pegadinha? E meu corpo paralisado, como explicaria? E as luzes, o som, o tremor no ar? O que estava acontecendo? Esperava apagar os sentidos a qualquer momento... 

– Viu?! Não é demais?! Hahahahaha... A gente tem como filmar tudo hoje em dia, de qualquer ângulo, em qualquer lugar, sem ninguém perceber! Muito engraçada esta sua cara, olha só, que bocão! Hahaha... Sabia que você ia ter medo, mas não esperava tanto assim! Foi melhor que a encomenda! Hahaha... Muito bom, muito bom! Ai, ai... 

Ao ouvir tantas gargalhadas daquele ser, que realmente estava zombando de meu maior temor, já rolando no chão e espalhando areia de tanto rir, pude dar uma boa olhada em suas formas, o que me trouxe maior confusão mental, revoltando meus pensamentos em questões ainda mais difíceis de serem resolvidas e trazendo à tona sentimentos nunca antes experimentados.

Analisei toda sua estrutura e fiquei atônito: os cabelos ondulados e sem corte, caiam frente à testa em rebeldia, os olhos claros apertavam-se entre as rugas de expressão ao gargalhar por aquela boca estreita e pequena, com dentes desproporcionais e levemente tortos, que pareciam estar indo mastigar a barba malfeita, escorrendo entre um furo no queixo e um papo recém formado de uma cara inchada e boêmia.

Os braços magros, num tronco, digamos, magro mas saliente na região do umbigo, as pernas mais finas que já vi e a roupa mais estranha para um extraterrestre materializado na noite fresca da praia: jeans velho e largo, com cinto franzindo os bolsos, chinelas de dedo nos pés pequenos, camiseta curta e surrada dos... Beatles?

Meu Deus, eu não podia aceitar a visão, era demais para mim! Num pulo assustado me libertei da paralisia temporária e, sem querer admitir todas as imagens que se passavam pela minha cabeça, só pude concluir, pra meu pior pesadelo, num grito interno que me trouxe o desmaio iminente: Aquele ET era eu!



Canalizado em PVC por Ivan Volpe | texto abduzido por 2