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A visão

Sexta, 16 de Fevereiro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Dona Elvira acordara de um transe. Estava de pé, no meio da cozinha, quando se deu conta do que estava acontecendo. Poucos minutos antes previra toda a cena que, naquele momento, começava à sua frente.

Ela, de penhoir, recebendo o marido na copa para o café da manhã. Dona Elvira havia preparado tudo enquanto Dr. Rubens se arrumava no banheiro. Exatamente como em sua visão, o companheiro, bem perfumado, entrou no ambiente, que cheirava a café, e sentou-se sem falar nada.

Ele usava a mesma roupa da visão tida pela mulher: terno escuro, camisa branca e sapatos pretos bem engraxados. Pegou um pão, cortou-o ao meio, passou manteiga de um lado, requeijão do outro e colocou duas fatias de presunto antes de fechar o sanduíche.

Antes da primeira mordida, ele apertou o pão no prato, facilitando o trabalho para comer o lanche. Tudo exatamente igual ao que previra a mulher, neste momento paralisada no meio da cozinha, segurando uma garrafa térmica de café.

Enquanto Dr. Rubens mastigava o primeiro pedaço do sanduíche, Dona Elvira se deu conta de que a seqüência da cena teria sua participação, servindo o café ao marido e dizendo ‘bom dia querido, assim está bom?’, olhando para a xícara branca sobre a mesa.

Mas não conseguiu se mexer. Estava paralisada com a visão. Seria um dom? Poderia prever coisas? Por alguns segundos sentiu uma sensação de euforia, uma possível mudança em sua vida, o controle das ações.... ‘Querida, o café’, disse Dr. Rubens, cortando o sonho da esposa.

Então, como fazia em todas as manhãs nos dez anos de casamento com Dr. Rubens, Donda Elvira serviu o café ao marido.



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