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A Ponte

Segunda, 3 de Setembro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor



Madrugada, viaduto Dr. Arnaldo, ponto acima da estação Sumaré do metrô, muitos metros lá embaixo está a Av. Sumaré, Zona Oeste de São Paulo.

– Quanto pesa um coração vazio!? – resmunga um, em voz baixa, interrompendo um longo silêncio.

– Ahn!? – questiona o outro, voltando a atenção para o cara ao seu lado.

– É! Oco, vazio. Um coração esvaziado. Quanto será que pesa? – retoma um.

– Humm, deve pesar o mesmo que um coração cheio de mágoa – responde o outro.

– Isso tinha me passado pela cabeça... – concorda um, disposto a iniciar novo silêncio.

Mas agora é o outro quem toma a palavra: – Sabe, outro dia fui ao cinema ver um documentário. Chama-se "A Ponte" e mostra a Golden Gate, em São Francisco, sob um aspecto, digamos, diferente.

– Nunca ouvi falar. Como assim diferente? – um.

– Bom, segundo os realizadores do filme, o local é o escolhido por quem quer dar fim à própria vida, mais do que qualquer outro no mundo – o outro.

– Sério?! – um.

– Bom, sei lá. A história é que durante 2004 inteiro os caras filmaram a ponte de 12 ângulos diferentes, flagrando a maioria dos 24 suicídios que ocorreram lá, evitaram outros – prossegue o outro. – Mas esse é só o ponto de partida. Na verdade, os caras tomam depoimentos de parentes, amigos e tentam responder o que leva uma pessoa a um ato tão extremo.

– Parece interessante... – afirma um – Deveríamos ter uma Golden Gate em São Paulo...

– Ah, mas a vista daqui também não é nada má, vai!? – continua o outro.

Uma nova pausa tem início entre os dois, após longos minutos, é um quem fala.

– Alguém pode morrer de solidão?

– Como assim!? – o outro.

– Ué, de tão só, a pessoa não resiste e morre... – um – Sei lá, como que asfixiada pela angústia?

– Acho que poderia ser, sim – estipula o outro. – Vítima de uma dor física forte, só que de outra origem.

– É, uma solidão resultante de auto-reclusão, de afastamento das pessoas mais próximas, de todos os amigos. O sofrimento decorrente disso, por exemplo – arrisca um.

– Me parece plausível – emenda o outro.

Após outro período sem palavras, agora é o outro quem retoma o diálogo.

– E você, teria coragem?

– De que? De saltar? – um.

– Sim, de pular daqui – outro.

– Bom, não sei. Até porque fico em dúvida se é coragem ou covardia – um – Acho que não, não seria o tipo de bom exemplo que deixaria para meus irmãos menores, por exemplo.

– Entendo, também pensei na minha mãe. Acho que seria muito sofrimento pra ela, né?! – concorda o outro.

– Dizem que terapia é legal – rebate um.

– Já me disseram isso – o outro, concordando com a cabeça.

Os dois permanecem ainda mais um tempo observando a vista lá do alto, até que o outro decide falar:

– É mesmo. Quanto será que pesa um coração vazio?

– Pois é, vamos? – sugere um.

– Sim, vamos...



escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | 5 comentários