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A perfumaria do velho Kurtz.

Sábado, 26 de Janeiro de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

    “Não importa o que me diga, jamais lembrarei.
Surdo pelo eco do ego reverberado no próprio umbigo.
Cego de certezas infestuosas que inflamam a carne como uma cólera febril.
Sem razão, sem coração ou mesmo dinheiro para a condução.
Condução que leve ao lado oposto deste apodrecer.”
 
                            -     François de Bergerac


Os versos porcamente traduzidos daquele escritor curdo de falso nome francês pareciam impressos sob a ferida secular que sentia latejar. Não que a ferida estivesse aberta ao longo do século. Nem mesmo a sua extensão poderia justificar tal pretensão. Nada havia de extraordinário naquilo. Talvez a dor, controlada por boas doses de morfina injetadas de quatro em quatro horas.

Mas a relatividade teorizada por certo alemão se torna prática e aferível quando se sente dor. Um dia, dois, uma semana, poucas horas, parecem se estender por eras.

Da mesma forma que a solidão é um momento supremo de dor, a dor é um momento supremo de solidão.

Não há dor coletiva, dor compartilhada.

Assim como no inferno, nada mais há que boas intenções de alguns mal-aventurados em tomarem para si parte da dor – como se isso fora possível fora da imaginação lúdica de poucos.

Imaginação pode trazer dor, mas não afastá-la. Não há ser imaginário que alivie uma dor como estas.

Para estas somente a realidade de uma seringa repleta do liquido esverdeado turvo gotejando pela extremidade da agulha é que acalanta o corpo e a alma. O resto, é perfumaria.



Introduzido (ui!) por fezon, o que virá | Comente e ganhe prêmios! (um caiu)