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A moça do brinco amarelo
A moça do brinco amarelo
Segunda, 24 de Março de 2008
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
Às vezes algo de muito bonito acontece no centro. Ela é uma dessas coisas. De trás do balcão eu a observava passar, sempre às cinco horas. Linda, linda. Era alta, vistosa, lábios cheios e peitos grandes e redondos. Morena, de cabelos pretos sólidos e pele bem branca. Havia claro, o brinco amarelo. Um só, do lado esquerdo. O resto era perfeita simetria, como se ela fosse feita com régua e compasso.
Ela despontava no final da rua vestida como uma insinuante executiva. Perfeita. Sempre às cinco horas. Do jeito que ela vinha, ela ía. Em linha reta da esquina, passando pela pastelaria, pela loja de R$ 1,99, o sex-shop, a lotérica e entrava no hotelzinho moquifento na outra esquina.
É, eu sei o que você está pensando. Mulher bonita como aquela, toda arrumada, naquele pardieiro de hotel no centro? Mas não, não era o tipo. Não encaixava, sabe? Se ela não fosse tão bonita, eu não a seguiria. Aliás, nem notaria. Não é a única bonitona a entrar no hotel. Afinal, tem cliente que às vezes ganha no bicho ou economiza durante um tempo e pode pagar melhor. Mas quando ela vinha, alegrava o meu final de tarde tedioso. Como nada nunca acontecia atrás daquele balcão feio e sujo, a moça do brinco amarelo era o motivo para eu ficar no emprego.
Ela vinha de vez em quando. Só uma ou duas vezes por mês, por isso no dia em que eu fui despedido, ela não apareceu. Mas apareceu três dias depois, no mesmo religioso horário, na minúscula e fedida recepção do hotel onde eu passara a ler velhas revistas Manchete à sua espera. Ela nem me notou. Eu a seguia por cima da revista.
Enquanto eu estudava aquelas curvas exageradas, ela me deixou ouvir pela primeira vez sua voz aveludada:
- Eu vim ver o Renato.
- Quarto 21 – O balconista informou.
Ela foi. Uma obra de arte ambulante subindo as escadas. Eu tentei puxar assunto com o balconista.
- Eita... Esse Renato, hein?
O homem me olhava com cara de poucos amigos e nem abriu a boca. Larguei a minha edição especial do carnaval e ganhei a rua, buscando por fora do hotel a janela do quarto 21. Ela apareceu, abriu-a uma fresta e sumiu lá dentro.
Entrei pelas lojas, rodei os becos e escalei calhas para conseguir chegar ao telhado de uma delas e como um gatuno, passei de imóvel em imóvel até encostar as mãos nas paredes do hotel. Pé ante pé, inexperiente, eu bambeava pelo estreito parapeito das janelas até alcançar a que eu queria. A vista da rodoviária se tornava uma silhueta enquanto o céu alaranjava e arroxeava. As pessoas ocupadas saindo de seus trabalhos começavam a notar o equilibrista bêbado que brincava de homem-aranha.
Meus dedos chegaram antes do que meus olhos à janela do quarto 21. Tateei e encontrei algo no que me agarrar, para que os olhos pudessem se espichar lá para dentro. A moça do brinco amarelo estava em pé no meio do quarto, vestida, altiva, com os olhos perdidos no tempo.
Sentado na cama, Renato. Um jovem, um moleque. Pequeno, magro, de barba cerrada no rosto e camiseta com estampa de encontro de faculdade de arquitetura. No seu colo um bloco de papel A3 e ao seu redor na cama, canetas, lápis, nanquim, giz de cera, pincéis e muitos, muitos, muitos retratados rabiscados da moça do brinco amarelo.
No seu bloco, ele terminava de traçar com firmeza linhas negras que davam à mulher seus contornos perfeitos. Assim como na vida real, seus lábios eram cheios, os peitos grandes e redondos, os cabelos sólidos e negros e o brinco, amarelo.
Renato só deixou o bloco para alcançar a janela de onde eu me pendurava e esmurrá-la na minha cara, me desequilibrando e fazendo com que eu me espatifasse na calçada, não sem antes quicar graciosamente no Toldo Jóia que cobria a porta. Sobrevivi por pouco e corri muito, mas não fui muito longe. Desgarrei das pessoas, embrenhei-me novamente nos becos das lojas e, já na escuridão, subi pelas calhas, caminhei pelos telhados e retornei ao hotel, dessa vez entrando pela primeira janela disponível e atravessando o corredor até o quarto 21. O casal que ocupava o primeiro quarto nem se incomodou comigo, enquanto transavam alucinadamente.
Encontrei o quarto vazio, logicamente, e na hora entendi que o Renato e a moça do brinco amarelo nunca mais voltariam para aquelas bandas. No chão ficou o retrato que ele terminava antes de me empurrar para cavalgar na gravidade. Tomei-o e levei para casa.
Na parede do meu quarto agora está a moça do brinco amarelo, que eu nunca saberei o nome, mas que pisca para mim.
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O Renato e a moça do brinco amarelo estão aqui ó:
http://renatopontello.blogspot.com/2007/11/quadro-venda_19.html
Mas a moça já é toda minha.
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