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A Loirinha, a Mangueira do Bombeiro e o Ônibus

Terça, 8 de Maio de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Entrei no ônibus. Minha fileira era 42. Era a penúltima, sempre gostei de ficar no fundão, mas neste caso não foi minha escolha, era o que tinha. Sentado à janela, esperei o resto da trupe subir no carro e, para a minha grata surpresa, sentou-se, sorridente, uma loirinha ao meu lado. Considerando a longa jornada de 40 horas que tínhamos adiante, percebi que tinha bastante tempo de convencê-la de que eu tinha como fazer aquelas intermináveis horas menos penosas para as duas partes.

Foi assim que, com charme e simpatia, além de uma orelha do meu i-pod e dos lanches de peito de peru que mamãe havia feito, o garotão ia se dando bem. Já tava botando panca sobre meus talentos obscuros – como estalar o cotovelo e alcançar o nariz com a língua –, fazendo piadinhas sobre a estrada, numa intimidade deliciosa com a garota.

Nessa hora entra o toalete.

Após tomar o six-pack de yakult – este não foi mamãe, foi minha irmã quem pôs na minha mochila – era hora de reciclar os fluidos, emergência que não esperaria a próxima parada, pois acabávamos de subir da última, que me havia passado despercebida, concentrado que estava em fazer graça para a dita cuja.

Pedi então licença para a garota e ela levantou-se. Enquanto eu passava pelo apertado corredor, ela me fitou e sorriu, rosto a alguns centímetros do meu e seu perfume de xampu phytoervas se misturou ao meu hálito de yakult em romântica e inusitada combinação.

Passei e entrei direto no toalete – afinal a poltrona 42 fica justo na frente da porta do mesmo – e fechei o trinco com certa dificuldade, parecia meio emperrado. Abri o zíper sem desafivelar o cinto – coisa que as mulheres só podem invejar – e comecei a aliviar minha vontade com os olhos fechados, misturando a sensação de alívio do xixi com aquela fagulha de paixão que orbitava entre a loirinha e o garotão, rindo sozinho. Desta vez não me concentrava no cheiro, afinal estava num banheiro de ônibus, me concentrava na imagem dela chegando, me sorrindo, me fitando e procurava adivinhar em quê ela estaria pensando agora.

TUM, TUMPÁ!!!

Exclamou o ônibus, passando por um buraco que deveria ser maior que a cratera do metrô de Pinheiros, a julgar pelo solavanco, que me atirou contra a porta do cubículo. Garotão não teve tempo de recolher o garotinho. Não houve tempo sequer de uma sinapse correr do cérebro ao esfíncter ordenando que se interrompera o jorro de yakult remixado. Resultado: fui violentamente arremessado para fora do toalete, arma em punho, mijando para todo lado igual mangueira-de-bombeiro sem bombeiro. Já era noite, mas eu pude ver ao menos a cara da loirinha que já não sorria mais e pude igualmente cheirar seu cabelo que já não cheirava mais exatamente phytoervas – arriscaria dizer que nem mesmo palmolive ou lux luxo.

Finda a farra do garotinho, me recolhi de volta ao toalete, sem abrir a boca. Fechei adequadamente a porta e lá fiquei. Pelas 36 horas restantes da viagem.

O Aloísio que não é do campo é o Aloísio da Cidade | hmmm, já mijaram neste póst