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A língua de Zezé

Quinta, 10 de Janeiro de 2008

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Nunca conheci uma pessoa mais sincera do que Zezé, ‘um bêbado do mundo’, como ele se autodenominava. A última vez que eu o vi, ele tentava subir as ladeiras de Ouro Preto com certa dificuldade.

“Vila Rica, Inconfidência Mineira, Maçonariaaaaa – pau no c...” – gritava.

Zezé não tinha papas na língua, se ele se incomodava com qualquer coisa que via na rua logo soltava sua opinião.

“Ei dona, não vai recolher a merda do seu cachorro?”

Outra coisa que o irritava eram problemas no trânsito. Principalmente o de pedestres. Certo dia, uma equipe de filmagem estava no centro de São Paulo gravando uma cena. Incomodado com aquele tumulto, Zezé, sem pensar duas vezes, se meteu na frente das câmeras.

“Isso são horas de filmar aqui no centro!” – gritou.

Rapidamente, Zezé levou um pito da produção e foi retirado do local, mas conseguiu escapar da segurança e voltou para dar uma bela gargalhada, tirando sarro da equipe que teve de refazer toda a cena.

Mas o que o deixava fulo da vida era quando via homens mexendo com mulheres na rua.

“Isso é que é mulher e não aquilo que quebra prato que eu tenho lá em casa” – disse um pai a um menininho de uns três anos.

Zezé ficou tão furioso, mas tão furioso que voou pra cima do homem e começou a gritar no ouvido dele a música “Nessa casa tem goteira pinga ni mim”.

No mesmo instante, apareceu uma viatura e levou o Zezé preso por arruaça e agressão. Zezé azucrinou tanto que o delegado resolveu soltá-lo. Não satisfeito, o bêbado voltou à delegacia.

- Ei, eu quero ficar aqui. Vocês não fazem nada além de prender bêbados, eu quero essa vida.
- Haha, essa é boa. Eu nunca vi alguém pedir pra ficar preso. Vai embora, meliante.
- Eu não sou meliante. Nessa casa tem goteira pinga ni mim...
- Não adianta cantar. Eu devia é prender o Sérgio Reis, isso sim. Ô música do inferno.
- Nessa casa tem goteira...

Um dia Zezé cansou de cantar e de falar a verdade, então, se candidatou a vereador, foi eleito e implantou o ‘Cachaça Popular - Nessa casa tem goteira’, botecos onde se vendiam doses de pinga por R$ 0,01. Mas, os produtores de cana da região foram à falência e ameaçaram Zezé de morte. Desde então, ele nunca mais foi visto.

Estranhamente, toda vez que eu passo em frente a uma garrafa de cachaça barata escuto uma voz cantando “Nessa casa tem goteira...”. 
    

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