![]() |
|
![]() |
A gente vai estar encerrando...Segunda, 10 de Setembro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Ainda estou em dúvida para descobrir onde é que mais me dói: se é o gerúndio irresponsável usado no futuro ou se é a tal da conta do bar que chega na mesa sem ser convidada. O ódio por essas duas coisas na verdade é apenas uma desculpa para não voar no pescoço da figura que ambas as carrega: Genésio, o garçom mala. O emprego do garçom não é servir. Isso é fácil, qualquer um pode fazer e em alguns bares que eu freqüento nem isso: você é que tem que buscar a sua gelada. O emprego do garçom é ser gente boa. E evitar o uso do gerúndio.Gerúndio é mortal. Tudo o mais a gente até coloca a culpa no dono do bar, que em geral já não está mais com o abdômen no balcão a muito tempo. Mas o gerúndio é culpa dele. O dono deixou lá o Genésio para recolher as últimas contas, passar um pano no chão e fechar tudo e foi dormir e ao pobre coitado, o que lhe sobra? Estar estando no boteco, até poder estar encerrando e estar recolhendo o dinheiro do cara que está mangüaçando e em breve estará vomitando, mas não estará gerundiando. Eu não gerundio. Tenho ódio mortal. Mais ódio do que o garçom que vem vindo gerundiando para o meu lado. Nesta dada ocasião de uma botecada light na melhor companhia possível no meio de um feriado impossível (porque 7 de Setembro é impossível. Impossível achar um bar, impossível descer para a praia, impossível ordenar a gramática) eu fui parar num dos poucos bares de rock da cidade. Pô, rock é rock, o resto é jazz, né? Mas, quem diria no meio do rock estavam jazzeando. E MPBeando. Nas duas televisões, Djavan jazzeava do jeito jazz que só ele sabe jazzear. E ele jazzeia muito bem, mas eu estava rocknroll. Olhei em volta. Três mesas apenas. Pedi cervejas e controle remoto. Pelamordedeus, cadê o rock? - Sabe o que é, o bar estava vazio, aí o pessoal da outra mesa pediu... Mas a cerveja estava gelada, a companhia excelente, e o bar é de rock, e nós, sem gerundiar, fomos ficando, até o papo se tornar pretérito e um primeiro gerúndio nos avisava que o futuro seria imperfeito, senão incerto. - Vocês vão querer mais alguma coisa da cozinha? É que nós vamos estar encerrando. Eu não queria estar pedindo nada, então, ressabiado, deixei o Genésio ir indo. E rindo do gerúndio, continuamos conversando, até que – juro! – uma hora depois, veio a cadernetinha preta de couro falso com a ficha corrida grampeada lá dentro. Lá nossas conquistas e nossos pecados se alinhavam, mais cedo do que a gente gostaria. - Vocês querem uma saideira? É que nós vamos estar encerrando... Olhei para a cara de gosto amargo da minha companhia e chamamos a tal saideira, ainda com a garrafa cheia na mesa. A saideira veio tão rápida que não houve tempo de gerundiá-la. Lá estava ela, inexorável, impávida, imexível, bem presente. E enquanto a cerveja anterior ía minguando, a saideira ía estando esquentando. Dolorosamente. Deixei-a estar e vagarosamente fomos molhando as palavras, sem pressa, sem medo. Enquanto um gerúndio ou outro a gente sempre espera, este terceiro me pegou totalmente desprevenido, um jab de esquerda gramatical. Uma elipse direta no meu lexical: - Gente, vocês não queriam estar acertando...? Fechar a cozinha, claro. Dar-me a conta, ofensivo, mas perdoável. Pedir para eu cair fora?! Ou ir caindo fora? A brutal vontade era de pedir-lhe em retorno que fosse indo tomar no cu. Ou que fosse estar tomando nele, mas resquícios de elegância diluída em álcool, e a minha companhia me fizeram medir as palavras e buscar no núcleo duro do meu cinismo maior a tirada rápida e eficaz que me comprou muitos inimigos. - Para mim está tudo certo, disse e entreguei a cadernetinha mórbida de volta. Vazia. O garçom deu dois passos em direção ao bar e buscou pelo dinheiro inexistente. Foi retornando em minha direção e foi se deixando levar pelos movimentos contínuos. Disléxico, ele resolveu estar esmurrando a mesa e resolveu estar tirando satisfações. Resolveu estar me mandando embora, não sem antes estar querendo arrumar a maior confusão. Me enxovalhou pela porta a fora para ir tratando de fechar o bar, para eu ir indo parar na sarjeta, de onde fui tratando de me levantar. Queria estar respondendo, mas houve que fui acertado no rosto pela minha própria carteira vazia que o garçom foi fazendo o favor de arremessar na minha cara. Depois disso, só mesmo ir voltando para casa. E evitando o uso do gerúndio e o abuso do Genésio.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | Um comentário por misericórida!
|