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A Fantasia de 95% dos HomensSegunda, 2 de Julho de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor De cabelo em pé bem fashion e enfiado no meu único terno eu estava fazendo a maior pose James Bond no que poderia ser descrito como a parte mais glamour do meu trabalho. E também a mais chata. Estava no hotel mais elegante da cidade distribuindo sorrisos e comentários breves com executivos de uma indústria farmacêutica. Quando as palestras já haviam acabado, todos estavam muito bem alimentados, a banda já tinha tocado e as recepcionistas gostosinhas já tinham todas ido embora, eu não tinha mais o que fazer ali.Fui tilintando os gelos no meu copo de whisky em direção ao bar, pensando se tomava mais uma ou tirava o time de campo rapidinho, uma vez que meu chefe já tinha desaparecido e o cliente estava devidamente embriagado e feliz. Se ao menos as recepcionistas gostosas ainda estivessem ali. Elas não têm curvas e nem conseguem articular duas idéias juntas, mas como já era mais de meia noite num sábado a noite geladíssimo, eu não tinha grandes esperanças de ver o mundo. Foi nessa hora que o mágico celular resolve tocar. Era uma amiga. Aquele tipo de amiga. E ela vinha com mais uma amiga. Não, eu não deveria estar pensando bobagem, afinal, ela não havia colocado nenhuma ênfase especial na palavra “amiga”. Mas é que ela é aquele tipo de amiga, então eu me permiti pensar todas as bobagens possíveis. Sim, a moça era bem resolvida e tinha a mente aberta. E andava nas melhores companhias. E após todos esses eufemismos nem tão delicados, preciso dizer que a moça tinha fogo no rabo mesmo. Fora responsável pelas melhores barbaridades nos finais de noite que calhávamos de nos encontrar. E quando ela tinha alguma idéia nova, era melhor estar por perto. Praticamente implorei que ela viesse me encontrar no hotel. E rumei para o bar, afinal, eu tinha 20 minutinhos nos quais espremer mais uma dose e whisky, mas que eu não poderia cumprir. Antes dos previstos 20 minutos, vejo o nome dela no identificador de chamada e já comecei a planejar uma madrugada jogando paciência no computador, mas aparentemente, não era uma desistência, nem mudança de última hora. Era um pedido de socorro. O carro dela havia parado há menos de um quilômetro do hotel. Ainda pensando besteira, e enfrentando o ar gelado da noite, voei para o local. Cheguei guiado pelas luzes de uma viatura da PM a partir da qual dois policiais se divertiam com o vertiginoso decote que a minha amiga trazia. Mesmo no desesperado frio que fazia, ela não fazia muita questão de se cobrir. Nem a amiga dela. Como podia usar tão pouca roupa naquele frio? - Oi! Essa é a minha amiga. Ela não é linda? Era. E estavam vestidas para matar. Os policiais são minhas testemunhas que nesse caso, eu só poderia sair dali como vítima. Pensei inúmeras besteiras enquanto tentava maquinar um jeito de levar esse carro para qualquer lugar menos o tal do hotel. Se me vissem entrando com esse par no hotel, com certeza pensariam bobagem. A boa notícia era que o defeito do carro era falta de gasolina. - Ai, sabe o que é, é que o ponteiro não está funcionando direito. – Ela miava. Claro que eu sei. Estou sabendo de tudo. A má notícia é que elas faziam questão de ir até o evento que eu organizara. - A gente quer ver você trabalhando – Sim, claro, era o trabalho que elas queriam ver, não o whisky de graça. Fiz a compra mais demorada de gasolina que eu pude e rumamos para o hotel. O olhar do recepcionista dizia tudo. Eu pensei em dizer algo do gênero não-é-o-que-você-está-pensando, mas os trajes noturnos das minhas amigas davam margem para muita interpretação. Quando a moça sai à caça, ela sai a caça. Dei algumas voltas pelo hotel antes de entrar no salão da recepção e consegui manter o meu emprego. Desviei de executivos bêbados e torci pelo melhor. O evento esvazia, os garçons recolhiam os copos, a equipe de faxina começava e um único barman solícito ainda passava o famoso paninho no balcão. Essa eu escapei por pouco. Passamos uma agradável hora discutindo, mecânica. Sim, mecânica. Não que nenhum de nós três entendesse nada do gênero, porém, minha amiga insistia e insistia que adorava o carrinho dela, que era super confiável e que nunca a havia deixado na mão. Só o ponteiro da gasolina que está ruim. Inclusive o carro dela poderia nos levar para onde quiséssemos. - E para onde o seu carro quer nos levar agora? A madrugada prometia e os decotes pareciam mais generosos. Os planos se descortinavam rapidamente. E para onde é que nós vamos? Não sei, qualquer lugar. Eu adoro qualquer lugar. Me ofereci para dirigir, mas como ela era apaixonadinha pelo carro, agradeceu, mas não aceitou. - Ué, mas você vai deixar seu carro aqui? Como eu já tive umas boas experiências ruins de ser deixado na mão pelo meu carro, resolvi que ele poderia descansar no hotel chique pela noite. Eu não gostaria de ter nenhuma daquelas surpresas típicas que são relatadas com os olhos baixos na segunda feira. Melhor apostar no carro super confiável. Não rumamos nem três quilômetros. O carro não era tão confiável assim. Foi uma longa e fria madrugada. E eu só fiquei pensando besteira.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | 1 misericordioso comentário
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