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A ética por um fio. De macarrãoSexta, 11 de Janeiro de 2008* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor A ética. É o assunto do momento, inclusive das redações escolares, que começam exatamente assim. Até as crianças que escrevem os tais textos, ainda que não conheçam o vocábulo, sabem bem do que se trata. Afinal, mesmo colando nas provas ou passando cola industrial na cadeira da professora (é, amigo, bons tempos em que só se colocavam tachinhas), elas têm a noção de não deveriam fazer isso. (Se é que dá para dizer que alguém que passa cola industrial na cadeira da professora tem alguma noção.)Por ser a pauta da vez, é difícil passar um dia sem ler matéria referente – como já foi dito aqui anteriormente, a moçada das redações não é muito chegada à criatividade. Até porque, políticos, polícia, clero e, eventualmente, cidadãos de bem não param de fornecer material. Apesar das páginas de jornais e revistas serem déjà vu numerado, sempre conseguem surpreender, seja pela idade do namoradinho de algum bispo, cada vez mais tenra, seja por onde os corruptos de Brasília escondem seu espólio. Depois da cueca, não me espantará se descobrirem um deputado com dinheiro no mesmo lugar onde o Batman costuma guardar o escudo. Mesmo assim, sempre há um ângulo novo para se analisar qualquer assunto, e com este não é diferente. Eu, por exemplo, recentemente encarei a questão da ética por um outro ponto de vista: o do buraco de um pene, um desses macarrõezinhos, sabe? (Se você pensou outra coisa, aposto que está pensando em passar cola na cadeira da tia.) Ah, sim, o pene é um canudinho, não um fio. E por que o “fio” no título? Ah, até parece que eu ia perder essa possibilidade de trocadilho. Outro dia, não tendo o que comer em casa, passei a mão num pacote de macarrão de preparo rápido – não miojo, era um mais sofisticado, “pasta aos quatro queijos” – da casa de uns amigos, deixando um deles sem jantar. Quando dei por conta disso, voltei e depositei no lugar o dinheiro que eu imaginava ser suficiente para comprar outro daquele. (Depois, soube que deveria ter deixado dois mangos a mais.) Historinha prosaica, prima do episódio do Yakult, sobre o qual já escrevi, mas cujo desfecho foi bem diferente. O Vini, dono do macarrão, apesar de ter passado todo o caminho até sua casa fantasiando sobre o instantâneo, achou graça ao encontrar as moedas e saber da história (sem ressentimentos, né, Vini?). Já a assessora de imprensa, proprietária do Yakult que peguei na geladeira coletiva, quase mobilizou os outros funcionários da minha antiga agência a fim de me linchar – e olha que ela só soube que tinha sido eu o autor do empréstimo porque deixei um bilhete avisando. O “caso Yakult” é o clássica situação “sujeito ligeiramente atrapalhado que tenta agir do jeito certo e se fode”, mas não leva o meu troféu nesse quesito. Ah, a concorrência é grande. Hoje mesmo, depois de já ter começado a escrever este texto, fui almoçar com um amigo e deixei o carro na rua, numa “área de estacionamento rotativo e pago”. Corri à lotérica mais próxima e comprei dois cupons da Zona Azul. O tempo passado lá foi o suficiente para um fiscal de trânsito justificar a cor predominante de seu uniforme: quando cheguei, a merda já estava feita. Tentei me explicar, disse que tinha parado havia cinco minutos, só o tempo de comprar os cupons, mas não teve jeito. O marronzinho continuou preenchendo a multa com a maior desfaçatez, como quem está acostumado a ouvir desculpas furadas diariamente – categoria, aliás, na qual a minha não se classificava. Disse para ele perguntar aos pedreiros sentados na calçada, pelos quais passei ao chegar, que eles confirmariam minha história. Ele: “Olha, sem querer colocar o senhor contra eles, sabe o que eles disseram quando cheguei ao seu carro? ‘Mete a caneta mesmo’”. Mesmo “sem querer colocar o senhor contra eles” foi bem isso o que fez o fiscal. Olhei para aquele bando de sujeitos que poderiam tranquilamente me dar uma surra e disse “obrigado por avisar que eu tinha ido comprar a porra da Zona Azul”, momentaneamente esquecido que eles poderiam tranquilamente me dar uma surra. Por sorte, o “sujeito ligeiramente atrapalhado que tenta agir do jeito” não se fodeu ainda mais. Ainda há pouco, só para confirmar o que venho dizendo sobre a ética ser o assunto da vez e também sobre a originalidade das pautas, foi noticiado mais um caso de “cara pobre que acha uma quantidade considerável de dinheiro e entrega para o dono sem tocar num centavo”. Desta vez, foi um caminhoneiro que encontrou uma pochete com dezessete mil reais (me pergunto como coube tanto dinheiro numa pochete) nem posto de gasolina e devolveu para o dono. Quando eu já me perguntava o que alguém fazia com dezessete milhas em dinheiro vivo, o parágrafo abaixo informou se tratar de um fazendeiro que ia comprar gado. Será que esse pessoal que negocia nelores, zebus e afins nunca ouviu falar de cheque ou cartão de crédito? Voltando ao camarada que achou a bufunfa, acho muito louvável o gesto, mas não sei se o faria. Do jeito que tenho sorte, perigava eu tomar uma multa quando fosse à casa do fazendeiro entregar a grana. E duvido que ele se ofereceria para pagá-la. Ao contrário de mim, do Vini e desse caminheiro, no geral, as pessoas não são legais.
Aquela coisa toda por
Leandro Leal | 3 descendo o pau
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