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A era do futebol-volante

Quarta, 17 de Outubro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Cansei de ver meu pai ou os “antigos” falando do tal futebol-arte, muito comum nos times e seleções das décadas de 50, 60 e 70. Eram esquadrões com quatro, cinco atacantes e quase ninguém no meio. Infelizmente, nasci em 1978 e só pude acompanhar melhor o que acontecia nos campos a partir do final da década de 80. Mas durante muito tempo, lembro que meus times de botão tinham a clássica formação 4-3-3, com dois pontas, dois meias e um único volante.

Depois, o tempo passou e os tais pontas sumiram, assim como o meia-direita. No começo, os pontas viraram meias; e os meia-direita, volantes. Os times então passaram a ter dois volantes, dois meias e dois atacantes, formando o tal 4-4-2. Logo depois, um dos meias virou volante também. Eis então que passamos a ter dois atacantes, um meia, e três volantes – 4-3-1-2, 4-4-2 recuado ou seja lá o que for. Confuso, não? Mas é isso aí.

Agora que partimos para o fim da primeira década do século 21, o que vejo é uma supervalorização dos volantes. Afinal, o único meia que sobrou, o tal número 10, está virando volante. E aqueles dois atacantes estão se transformando em um só para dar lugar a o quê? Claro, outro volante. É o 4-4-2 com quatro volantes, o 4-5-1 e até o maldito 4-6-0.

Daqui a pouco, teremos um time só de volantes. E não vai demorar muito, pois equipes que vêm jogando bem (ou melhor, ganhando), como Palmeiras, São Paulo e Santos já tem espalhado seu leque de “números 5 e 8” para todos os lados do campo, sobretudo as laterais. Vide os casos de Souza, Wendel, Maldonado. Outros meias e atacantes, como Leandro e Jorge Wagner, também já partiram para o mesmo caminho.

O São Paulo, por sinal, transformou-se no melhor time brasileiro dos últimos anos graças aos seus volantes. O Mineiro foi o herói do mundial. O Josué era o cara, agora é o Hernanes. Enquanto isso, meias como Danilo e Hugo se tornaram meros coadjuvantes de todas aquelas belas campanhas.

O Palmeiras, por sua vez, só passou a ganhar quanto fechou o meio-campo com Pierrre, Makelele e Martinez. Só sobrou o Valdívia, e olha lá. E tem gente da imprensa que ainda critica o chileno. "Ele é muito abusado, folgado". O Santos empacou com Pedrinho e Petkovic. “Dois meias não dá”, foi o que eu ouvi. E depois de domingo já ouvi falar que Robinho, Kaká e Ronaldinho juntos na seleção também não dá. Ou seja, lá vem Elano, Júlio Baptista e a turminha dos volantes encher os jogos de chutões e trombadas.

Às vezes penso: e aquele time mágico de 96 do Palmeiras, com os DOIS MEIAS Djalminha e Rivaldo, perderia o atual Brasileirão? E o Corinthians de 98/99, com Ricardinho, Marcelinho e o meia-atacante Rincón, que virou volante, rebaixaria? Até o Vampeta jogava na frente naquela época.

Será que técnicos como Dunga, Muricy e Caio Jr não estão mais preocupados com o seu cargo do que com a oportunidade de criar times melhores? Ah, o tal meia clássico, o número 10 sumiu, muitos vão dizer. O futebol brasileiro não tem mais craques, comentarão outros. Claro, eles não são escalados. E os que tentam jogar, são espancados em campo ou adiantados para frente para dar lugar a um volante. Pior, são criticados pela imprensa. "Ele não é um jogador moderno".

Céus, será que o Manchester, com Tevez, Anderson, Rooney e Cristiano Ronaldo é ruim? E o Barcelona de Messi, Deco, Henry e Ronaldinho, é fraco? Chato de ver? Estaria a torcida desses times sentindo falta do Gilberto Silva ou do Fernando?

Só mais uma pergunta: estariam os brasileiros satisfeitos com o Dunga, o técnico mais volante do mundo?

Só para quem não se recorda: o gol, o grande objetivo do futebol, fica lá na frente, pertinho dos meias e atacantes e bem longe dos volantes. O gol, aquela coisa bacana que o Dunga sempre tentou evitar. E, pelo jeito, sempre tentará, sem se preocupar com mais nada. 

O Parrera é retranqueiro, foi ridículo na Copa, mas ao menos deixou os brasileiros verem a seleção jogar bem durante três anos. Deu show, foi muito bom. Que contratem o Dunga ou o Felipão apenas durante a Copa. Antes disso, deixem o Brasil e o Campeonato Brasileiro serem o que sempre foram. Não os transformem na Alemanha ou na Itália, por favor.     



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