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A casa dos 30

Sexta, 10 de Agosto de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

"É minha última semana na casa dos vinte". Diante desse comentário, a amiga da Carol que estava no carro com nós dois, a quem eu tinha conhecido ontem mesmo, disparou: "Ué, mas você não acabou de se mudar para lá?" Entre gargalhadas, minhas e da nossa amiga em comum, expliquei à inocente moça que a tal casa não era o recém alugado quarto no apartamento que divido em Lisboa. Antes fosse. Quis dizer que, domingo, farei trinta. E não serão 30 flexões de braço, 30 origamis ou 30 jogos na Mega Sena. São 30 anos, mesmo. (Sempre existe o risco de mais alguém me interpretar errado.)

Os 30 anos são como a AIDS, o seqüestro relâmpago ou pegar mulher bonita: vocâ acha que só acontece com os outros. Eu também pensava assim, por isso, nem me previni. Ao invés de me trancar em alguma câmara de animaçâo suspensa, fui simplesmente vivendo. No mínimo, me esforcei para fazer isso da melhor maneira. Errei e acertei em proporções parecidas, aproveitei e disperdicei oportunidades, fiz amigos e inimigos. Claro, me arrependo de muita coisa - não vou cair no clichê do "só me arrependo do que não fiz". Mas quem mandou querer ter livre arbitrío? Escolher é tentativa e erro, e quem não souber disso é porque não leu as letras miúdas do contrato.

Me sinto um pouco cretino fazendo mais uma dissertação sobre os 30 anos, quando tudo o que o mundo menos precisa é de mais uma. (O Morfina, inclusive, já tem o Vini como enviado especial, trazendo informaçôes da zona de conflito com os primeiros cabelos brancos.) Mas, francamente, se eu quisesse fazer algo de que o mundo realmente precisa, teria estudado medicina - ei, não quero ressucitar esse tópico sobre as "profissôes importantes e as desprezíveis"; sou um porco capitalista publicitário, e o emprego em que começo segunda-feira indica que o serei por mais um tempo. Escolhi o tema porque, bem, estando diante de idade tão emblemática, digamos que o tema me encurralou num beco sem saída e, com um soco inglês na mão, exigiu que eu o escolhesse.

Inclusive, fazer crônicas sobre os 30 e outras as coisas sem se preocupar com o que os outros vão pensar - não é, Sartre? - é algo que alguém nessa idade já deveria ter aprendido. Mas essa é mais uma das supresas que a fim da segunda década de vida nos ensina: você não chega aqui tão realizado e livre de paranóias e questionamentos como imaginava que estaria. Não sei você, mas, quando criança (e, portanto, idiota), acreditava piamente que minhas angústias se resolveriam magicamente aos 18 e, lá pelos 30, já teria alcançado o primeiro milhão - que nem sei se um dia alcançarei -, dinheiro que, supunha, daria para comprar a mansão que dividiria com minha linda família e minha Ferrari, mais linda ainda. Ao invés disso, estou em outro país, praticamente recomeçando minha carreira. Tenho sim uma linda namorada, mas só vejo Ferraris nas lojas da Avenida Europa - ou, mais recentemente, nas ruas do continente que deu nome à avenida paulistana.

Mas esses 30 anos me ensinaram, sim, um bocado de coisa. Apesar de continuar a aceitar doce de estranho e a atravessar sem olhar para os dois lados, aprendi a confiar mais em mim mesmo, para dizer o mínimo. (E é o mínimo mesmo que vou dizer, porque quero terminar isso antes de se acabarem os minutos a que tenho direito nesse cybercafé.)Aprendi, também, a deixar certos preconceitos de lado. Opa, opa, só estou falando da aversão que sempre tive aos best sellers. Presença constante nas mesas das secretárias e divindido suas prateleiras com os volumes do Paulo Coelho, "O Caçador de Pipas", de Khaled Housseini, tem sido uma excelente surpresa. Comecei a ler ontem e, desde então, aproveitando meus últimos dias de vagabundagem, mal parei.

Agora há pouco, estava numa praça lisboeta, absorto no romance ambientado na capital do Afeganistão, quando sentou-se ao meu lado uma senhora muçulmana envolta em lenços, e seu filho, que trouxe à mente os protagonistas da história. "Só pode ser um sinal" - dessa vez, não consgui fugir ao lugar-comum. Era mesmo. Pulando e cantando em árabe com uma vozinha anasalada, o menino me avisava: "Você está cada vez mais velho e sem paciência." Bem-vindo à casa dos 30.

Aquela coisa toda por Leandro Leal | 2 descendo o pau