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A batalha da Mussarela
A batalha da Mussarela
Sexta, 25 de Maio de 2007
* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor
A mão gelada e com sono entrou em gesto lento na geladeira. O frio interno não causou incômodo ao frio externo. Pegou o prato com o queijo mussarela, colocou-o em cima da mesa e abriu um pão ao meio para fazer seu sanduíche.
Foi sua primeira atividade pensada do dia. Escolher o que comer no café da manhã. O banho havia sido tão automático como desligar o despertador e sair da bolha quente de cobertas da cama.
Com a mesma mão gelada, tentou puxar a primeira fatia do queijo. Estavam todas grudadas. Não conseguiu nem levantar uma pontinha para iniciar o trabalho. Fechou os olhos e suspirou, como se, ao abri-los, aquele pesadelo tivesse passado.
Não passou, obviamente. Olhou para aquela pedra de mussarela em fatias, todas tão coladas umas às outras. Pensou primeiro em desistir e sair sem comer. Poderia passar na padaria antes de ir para o escritório.
Mas decidiu tentar, repentinamente tomado por uma garra, vontade de batalhar por seus desejos e objetivos. Encarou novamente a mussarela. A segunda idéia foi esquentá-la, ou próxima a uma boca do fogão, ou mesmo no microondas.
Descartou o plano com medo estragar o que não comeria do queijo naquele momento. Só para confirmar, tentou mais uma vez puxar a ponta de uma fatia. Como imaginava, tentativa completamente inútil.
Pegou uma faca na gaveta para tentar separar as fatias. Logo que a ponta da faca penetrou no bloco, quebrou-se um pequenino pedaço da mussarela, o restante permanecendo tão grudado quanto estava antes.
Irritou-se e, sem paciência, repetiu o movimento diversas vezes, o nervosismo crescente. O máximo que conseguiu foram diversos pequenos pedados do queijo. Demoraria um grande tempo para ter o suficiente necessário ao sanduíche.
Largou a pedra de mussarela no prato, voltou a respirar fundo, tentou pensar em outras coisas. Depois, cuidadosamente, quase sem respirar para não fazer barulho e chamar a atenção do queijo, tentou novamente penetrar a faca entre as fatias.
Avançou um milímetro, dois, três, quatro, e um pedaço novamente se quebrou. Maior que os anteriores, mas ainda totalmente pequeno. ’Filho da puta. Filho da puta!!’, repetiu, encarando aquela peça amarela e sem vida.
Apesar de a mão estar ainda mais gelada depois de tanto manusear aquela peça fria de queijo, já havia até esquecido o frio. Puxou a manga da blusa, criou coragem e com uma faca de cortar carne, afiada, partiu para nova tentativa.
O corte da faca, ou o queijo que já não estava mais tão gelado, ou ambos, ajudaram. E, vagarosamente, foi soltando toda uma fatia. Quis comemorar, mas segurou a empolgação até conseguir livrar uma segunda. Deu-se ao luxo de ainda soltar a terceira.
Havia vencido. Estava orgulhoso. Comeu seu queijo quente e saiu para o trabalho. Manteve sempre a postura ereta de quem atingiu um grande objetivo. Mesmo que, por dentro, estivesse todo encolhido em uma grande dor.
Era a primeira manhã sem a ex-mulher. Que, durante tantos anos, preparara seu café da manhã. Sentiu saudades. Ela fazia um queijo quente como ninguém.
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