![]() |
|
![]() |
Entrevista com MonauralSexta, 25 de Julho de 2008
O Monaural surgiu em 2003, em um quarto quente e abafado na zona leste de São Paulo. Usando referências de bandas dos anos 90 como Nirvana, Soundgarden, Melvins, Mudhoney e outras tantas, o trio formado por Ayuso (vocais e guitarra), Gualter (baixo) e Herik (bateria), faz um som cru, nervoso, com letras que revelam uma forte preocupação nas mensagens que a banda quer passar. Agora estão em vias de lançar seu primeiro álbum, "Expurgo", que contou com a participação de figuras carimbadas do rock independente, como Davi Rodriguez (Ecos Falsos), Clayton Martim (Detetives e Cidadão Instigado) e do desenhista Marcatti, que tem entre seus trabalhos capas para o Ratos de Porão. Ouça aqui o som do Monaural (clique aqui). Conversei com o vocalista Ayuso, que deu essa entrevista para o Morfina:
Ayuso (Monaural): A idéia de montar uma banda surgiu depois de uma descontraída conversa que tive com Herik, nosso baterista. Eu já havia tocado em outras bandas e nenhuma delas tinha prosperado. Ele chegou a ser roadie de todas elas (risos), por muitas vezes até passava o som na bateria! Foi assim que chamou a minha atenção. Ele conhecia 90% das nossas músicas e já havíamos tocado juntos num projeto de math rock chamado Atrito. Bem, ele fez a proposta e eu não recusei. Depois disso colocamos um anúncio na galeria do rock para encontrar um baixista. Alguns dias depois Gualter nos ligou e marcamos um ensaio na casa da madrinha do Herik, a Dona Adelaide. Lá ensaiávamos num quarto subterrâneo onde somente eu conseguia ficar em pé, era quente pra caramba! Nesse lugar nasceu o que viria a ser mais tarde o Monaural. A formação original da banda sempre foi um power-trio, porém por alguns meses tivemos um segundo guitarrista, chamado Saiki (baixista da banda Forte Apache). Foi bem interessante tocar nesse formato de quarteto, evoluímos muito como músicos depois dessa experiência. Pena ter durado tão pouco tempo.
A: Estávamos com uma grande dificuldade em achar um nome para a banda. Já havíamos nos chamado de Valium e Membrana, dois nomes que não batiam e queríamos mudar. Um belo dia estava eu conversando com meu melhor amigo, o Carlos, e perguntei pra ele, "se você tivesse uma banda, cara, qual nome daria a ela?". Ele respondeu: "Monaural". Sem querer ele acabou nos batizando. Fui num dicionário procurar o significado e achei forte! Era algo como "tudo por um só canal”. Logo veio a imagem em minha cabeça de um tanque cheio de lama jorrando por um cano estreito. É quase uma personificação do nosso som.
A: As minhas, e acredito que a deles também, sempre foram ter uma banda e fazer boas músicas! Músicas fortes, que tivessem algo de verdadeiro para passar. Continuamos com as mesmas pretensões desde o ínicio.
A: Eu geralmente chego com os riffs prontos, as vezes com esboços, e deixo que eles façam a parte deles. Quase sempre, depois de prontas, as músicas se tornam bem diferentes do que era na minha cabeça.
A: Eu escrevo todas as letras.
A: Acho que elas vêm das coisas que a gente ouve. Todos os três tiveram como formação o rock na década de 90, ouvindo Nirvana, Alice in Chains, Mudhoney, Melvins, Sound Garden, etc... Eu sou fã declarado de Nirvana, minha banda predileta sem sombra de dúvidas. Ouvi muito eles e aprendi muita coisa com eles também. Nirvana é um enciclopédia cheia de lições punk e boas referências músicais. Através deles conheci diversos artistas de estilos diferentes, de Melvins à Sebadoh, de REM à Vaselines.. sendo uma grande parte dessas bandas minhas prediletas de hoje. Porém eu não sinto mais essa influência "Nirvanesca" tão explicita no nosso som, já fomos bem mais descarados em relação a isso (risos).
A: Umas sim outras não. Eu sou uma pessoa de muita sensibilidade, mas longe daquela figura do "emo". Isso é bom mas as vezes também é uma bosta! Me sinto muitas vezes um idiota por isso. Por sofrer ou me frustrar por coisas tão pequenas, o impacto em mim é muitas vezes mais forte do que deveria ser! Mas foi na música que eu encontrei uma forma de vomitar tudo isso. Uma forma de me defender, canalizar as minhas dores, minhas paranóias e tentar também amadurecer como pessoa. Nem sempre foco em meus problemas para escrever, muitas vezes tento me colocar do lado de fora de algumas situações e tento escrever sobre elas. Em "Expurgo" fiz isso com mais segurança e precisão. Acho que as pessoas vão perceber isso se prestarem mais atenção nas letras. Muita gente só quer ouvir o barulho que a gente faz e acaba deixando a mensagem como segundo plano. Isso pra mim é uma bosta, pois às vezes sinto que todos meus esforços em escrever algo bom e verdadeiro acabam sendo meio em vão. Mas no final sempre vão existir pessoas que acabam percebendo isso melhor que as outras. Isso me faz sentir um certo alívio
A: Um disco mais maduro e cheio de contraste, continua pesado mas mais variado, as vezes barulhento ao extremo, abusando do fuzz e das distorções, as vezes mais limpo e melódico. Tivemos uma maior liberdade em explorar timbres! Dessa vez tivemos mais tempo para trabalhar. Todos nós evoluímos muito nesse período de composição de "Expurgo". Pela primeira vez demos mais enfoque para coisas que passaram despercebidas nos trabalhos anteriores. Tentei caprichar mais em minhas linhas vocais. O Herik trabalhou forte na composição das bateras de cada música. A sua maior preocupação desde o começo era que não tivessemos viradas repetidas entre as músicas, achei isso muito legal e corajoso da parte dele como músico. O Gualter adicionou mais sujeira em seus baixos para preencher o vazio deixado na banda depois da saída de Saiki. Davi Rodriguez (Ecos Falsos), nosso produtor, também nos ajudou muito! Sempre dando idéias e novos rumos para as composições. Na gravação pudemos contar com Clayton Martins (Detetives/Cidadão Instigado), que demonstrou muita experiência e competência em gravar bandas de rock! Um cara que tem um extenso currículo de gravações de bandas conhecidas do cenário como Autoramas, Flaming Moe, Júpiter Maçã entre outros. E além disso o cara também é músico, tem um puta tato pra coisa. Não se precisa de muito mais que isso para se gravar bons discos de rock, precisa? Isso nos deu segurança e um resultado satisfatório no final das gravações. Ficou como a gente queria, um disco de rock de garagem bem gravado!
A: Enxergo a cena como um enorme circo, cheio de palhaços! Alguns são muito engraçados e interessantes e estão preocupados em apresentar um ótimo espetáculo para o seu público. Outros não, estão ali apenas para aparecer e alimentar seus egos e, na boa, esses não costumam ter graça alguma. Essa pergunta sobre a Indústria fonográfica é uma questão que quase todos artistas que conheço não saberiam responder 100% com exatidão. Sinto que estamos perdidos no meio disso tudo. Essa transição causada pela “evolução tecnológica”, ou sei lá que porra é essa, está deixando todo mundo paranóico. Lançamos tudo virtual? Prensamos o CD? Será que alguém vai comprar nosso disco? Mas se a gente não prensar, vão nos levar a sério? São perguntas que não sabemos responder com exatidão, mas vamos apostar no tradicional CD sem deixar de lado as tendências do nosso tempo, seria estúpidez demais se limitar nesse aspecto. Agora esse lance de se destacar... é bem relativo. Fazemos um rock barulhento e optamos em fazer composições que não soem tão óbvias. Isso já dificulta e muito nosso suposto "destaque" na cena, mas no meio desses palhaços a gente ainda consegue tirar algumas boas risadas, assim espero.
A: Em primeiro lugar, boas bandas. Em segundo lugar, público para essas bandas. Não adianta nada você mandar ver com sons foda e não ter ninguém ali pra entender a sua proposta. A maior dificuldade é conquistar respeito e valor pelo que você faz, pois aqui nesse país se você não for idiota e cretino o suficiente, você não existe, ou melhor, eles preferem fingir que você não existe. É uma forma de te anular. Isso é uma bosta bem grande! Me sinto anulado o tempo todo nesse país. Até dentro da cena, algumas bandas tem dificuldade em se aceitar, a concorrência é muito grande! Mas não vejo dessa forma, a nossa postura é produzir e dar o devido valor para o que fazemos, foda-se quem não gostar! Não é uma falta de respeito e sim apenas uma forma de conseguir produzir sem se corromper, sem perder o foco. A música deve falar mais alto, sempre! E se você se leva a sério demais acaba virando uma piada. Aprendi isso apanhando um pouco.
A: A gravação e a produção de "Expurgo" já estão prontas! E ficou muito foda, modéstia a parte. Finalizamos no começo desse ano e ficamos meio que presos com o lance da capa. Que nesse momento também já está pronta! O desenho foi feito por Marcatti, o mesmo que fez "Anarkophobia", "Só Crássicos" e "Brasil", da banda Ratos de Porão. E foi incível. Tanto com Clayton, quanto com Davi e até no caso com o próprio Marcatti. São Pessoas brilhantes, cada um com seu estilo e seu charme artístico próprio. Foi uma experiência super marcante e proveitosa, todos aprendemos muito juntos. Isso é o mais relevante, para mim nunca importou o nome que eles têm na cena, mesmo hoje tendo a certeza que isso possa repercutir a favor da gente. Mas gostaria de deixar bem claro para todo mundo que nossa intenção foi 100% artística, desde o começo. Por exemplo, O Davi resolveu produzir o nosso disco a muito tempo atrás, depois de ver um show nosso em um bar bem ralé no centro de São Paulo, e na época eu nem se quer imaginava quem era ele e vice e versa, saca? Se ele fazia parte de uma banda que viria a ser popular na cena como é hoje e coisa do tipo. Postura e relação bem diferentes do que eu ando vendo por aí em algumas bandas novas, que fazem determinados convites para usufruto próprio, como autopromoção. Para quem tem olho crítico, pega isso na hora e queima o filme geral, pelo menos pra mim. Com o Marcatti não foi diferente, o conheci quando menino, devia ter uns 12 anos e estava montando minha primeira banda. Eu freqüentava a casa dele por ser amigo de seu filho mais velho, André. Nessa época eu ganhei toda a coleção de revistas dele. Eu tinha tudo e adorava ver aquele monte de desenhos sujos, cheios de sacanagens e muito humor escatológico! Era do caralho! Isso me influenciou a começar a desenhar na época e desde então eu sempre sonhei com a hipótese dele desenhar a capa de um cd de uma possível futura banda minha. Dessa vez eu fiz o convite e ele aceitou. Imagina o quanto eu fiquei feliz! Realização pessoal fudida! Sem palavras...
A: Está meio que gotejando! Mas está se desenvolvendo até que bem, conforme o possível. Temos um show dia 27 de julho na Livraria da Esquina, junto com o Pessoal do Deavollo e o Fusarium, que são nossos comparsas! Ótimas bandas por sinal! Temos também dia 23 de agosto em Sorocaba, na festa Misturativa, dia 29 de agosto em Taboão no Fábrika Rock, 06 de setembro no conhecido Clube Berlin e 12 de setembro no ABC. Para saber mais sobre nossa agenda é só visitar nosso fotolog, ferramenta indispensável para divulgação hoje em dia (www.fotolog.com/monaural) ou nosso MySpace (www.myspace.com/monaural).
A: Não sei, cara, o futuro é pra mim uma mera conseqüência do presente, então se conseguirmos trabalhar direito agora, talvez lá na frente a gente possa ter mudado alguma coisa, deixando bons discos e quem sabe deixar também nosso nome marcado para algumas pessoas. Isso para mim já seria o suficiente, mas se conseguirmos um dia nos sustentar com nossa música, não vou ser hipócrita e dizer que eu não iria gostar.
A: Para mim não existe nada mais satisfatório do que fazer o que mais amo. Então não me vejo fazendo outra coisa a não ser música, mas qualquer outra opção envolveria alguma forma de usar a criatividade.
Não dêem muita atenção ao
Tiago Barizon | Uma pitacada
|